Uma constante na história do cinema é criticar filmes baseados em livros porque a versão original não teria sido respeitada.

Mas cineastas não têm obrigação de fidelidade à literatura. O artista deve ser livre para interpretar, estabelecer conexões com outras obras, expor sua sensibilidade estética e fazer escolhas capazes de transpor narrativas verbais para o suporte audiovisual.

"A Odisseia" de Christopher Nolan, lançada neste mês, foi alvo de críticas nesse sentido. O filme, de fato, altera a caracterização dos personagens. Enquanto a epopeia atribuída a Homero valoriza heroísmo, coragem, glória e astúcia guerreira, com momentos de erotismo e até de humor, a obra de Nolan foca em culpa e esvazia a sexualidade. É uma Odisseia mais escura —como explicitam os cenários e a fotografia.

Essa leitura sombria não é alheia à tradição clássica. Autores antigos, como Virgílio, já haviam contraposto à celebração do estratagema de Odisseu a perspectiva das vítimas da Guerra de Troia, apresentando-o como enganador e cruel. Nolan interioriza no personagem essa acusação.

Mas o que chama atenção é a sanha politizadora das críticas feitas por parte da direita conservadora. As escolhas do diretor são expostas como propaganda esquerdista que minaria os pilares da civilização ocidental. E esse movimento começou antes mesmo do lançamento do filme, devido à escalação de Lupita Nyong’o, atriz negra, e Elliot Page, ator trans.