Em julho, a releitura cinematográfica de Christopher Nolan da "Odisseia", de Homero, suscitou discussões sobre o que significa adaptar um clássico à nossa época, transpondo-o para uma linguagem artística distinta.

Entre os meus amigos, alguns deixaram a sala de cinema satisfeitos com o filme. Outros, no entanto, criticaram a estrutura do roteiro, as distorções em relação ao poema homérico, a ausência de personagens e as performances de atores consagrados como Matt Damon e Anne Hathaway, escolhidos para viver o casal Ulisses e Penélope.

A interpretação da dupla também não me convenceu. Gostei muito mais das atuações de Ralph Fiennes e Juliette Binoche em "O Retorno" (2024), de Uberto Pasolini, o que se deve não apenas à qualidade dos intérpretes, mas também ao próprio recorte da adaptação, que abandona a grandiosidade da epopeia para privilegiar um estudo dos conflitos íntimos e das emoções das personagens.

O resultado dessas escolhas é um retrato mais complexo das relações familiares, não apenas entre Ulisses e Penélope, mas também entre Ulisses e o seu filho, Telêmaco.

A minha preferência pelo filme de Pasolini não significa, no entanto, que exista uma única maneira de adaptar Homero para as telas. As diferentes soluções encontradas pelos dois diretores são igualmente legítimas e confirmam que um mesmo texto pode ser lido e interpretado de maneiras distintas. Ora, é justamente essa abertura a novas interpretações que faz dos clássicos obras inesgotáveis, às quais retornamos sempre que sentimos necessidade de melhor compreender o mundo à nossa volta.