Christopher Nolan criou uma "Odisseia" visualmente impressionante. Críticos concordam que há cenas que lembram obras de Francisco de Goya —caso do ciclope Polifemo—, Paolo Uccello —os gigantes lestrigões—, Ingmar Bergman —o Hades—, as paisagens marítimas de William Turner, a antiguidade artificial dos exteriores de Giorgio de Chirico, os areais oníricos de Salvador Dalí.

Cena do filme 'A Odisseia', de Christopher Nolan - Divulgação

Também é notório que certos enquadramentos acrescentam ecos de outros filmes seus, sobretudo "Dunkirk" e "Oppenheimer", de que, em certo sentido, "A Odisseia" é uma continuação anacrônica. O acréscimo da narrativa pormenorizada do cavalo de Troia, apenas indiretamente narrada no poema, traz ainda a ressonância das guerras americanas no Oriente Médio.

Acrescentemos que o vilão principal, Antínoo —papel de Robert Pattinson—, com um guarda-roupa que lembra o de Cômodo em "Gladiador", é um desertor do serviço militar, que não saberia o que fazer com o trono de Ítaca se o obtivesse, e que a preocupação central do filme é com o declínio da civilização da Idade do Bronze.

É assim evidente que as preocupações de Nolan não se situam na Grécia Arcaica. Nisso, o realizador procede com a liberdade de um aedo, isto é, de um poeta da Antiguidade capaz de criar um poema como "Odisseia".