Os houthis do Iêmen, grupo aliado de Teerã, afirmaram nesta quinta-feira ter atacado dois petroleiros da Arábia Saudita como parte de um bloqueio naval ao país, abrindo uma nova frente na guerra entre Estados Unidos e Irã ao criar um segundo gargalo para o abastecimento global de petróleo após o fechamento do Estreito de Ormuz. Enquanto isso, as Forças Armadas americanas realizaram uma nova rodada de ataques contra o Irã por ordem do presidente Donald Trump, marcando a 12ª noite consecutiva de ofensivas e provocando retaliações iranianas contra os países do Golfo Pérsico. Mesmo antes das novas ameaças ao tráfego marítimo no Mar Vermelho, o bloqueio quase total do Estreito de Ormuz pelo Irã já vinha alimentando a inflação ao redor do mundo e elevando os preços internacionais da energia, o que pode desacelerar o crescimento da economia global para 1,3% neste ano, segundo o Banco Mundial. O barril do Brent, referência mundial, avançava 4,45% por volta das 7h desta quinta-feira, cotado a US$ 98,29. Já o WTI, referência nos EUA, era negociado em alta de 3,81%, a US$ 90,14. Os houthis afirmaram que suas forças realizaram ataques com mísseis e drones contra dois petroleiros sauditas no Mar Vermelho, identificados como Encelia e Layla. A agência estatal saudita SPA, citando uma fonte oficial, confirmou que o Encelia foi atingido, provocando um incêndio na proa. O ataque ao Layla, que transportava petróleo bruto, ainda não foi confirmado. Guerra no Irã já custou US$ 37,5 bi aos americanos — Foto: Imagem Valor Econômico Uma fonte de segurança informou que o Encelia emitiu um pedido de socorro, relatando ter sido atingido por um míssil nas proximidades do porto saudita de Jizan, no Mar Vermelho, no fim da noite de quarta-feira, embora ainda não esteja claro qual foi a extensão dos danos causados pelo ataque reivindicado pelos houthis. Os ataques ocorreram depois de os houthis, que controlam parte do Iêmen e áreas próximas ao Estreito de Bab el-Mandeb, porta de entrada e saída para o Mar Vermelho, terem anunciado na segunda-feira a imposição de um bloqueio naval contra a Arábia Saudita, medida que alguns analistas interpretaram como uma manobra tática do Irã para ampliar seu poder de barganha nas negociações com os EUA. Ao menos cinco petroleiros mudaram de rota no Mar Vermelho para evitar o Estreito de Bab el-Mandeb ontem. Na terça-feira, três navios com petróleo saudita destinados à China e à Índia também deram meia-volta, optando por seguir um caminho muito mais longo para viajar até a Ásia. Desde o início da guerra em fevereiro, milhões de barris de petróleo da Arábia Saudita têm sido enviados diariamente ao porto de Yanbu, no Mar Vermelho, para evitar o Estreito de Ormuz. Se os carregamentos não puderem atravessar Bab el-Mandeb, restará apenas a rota ao norte, pelo Canal de Suez, acrescentando semanas de viagem e elevando os custos com fretes. O bloqueio naval dos houthis à Arábia Saudita no Mar Vermelho pode ampliar significativamente a guerra e sobrecarregar os militares dos EUA, segundo autoridades americanas e ex-integrantes do governo, já que grande parte da capacidade está focada na ofensiva contra o Irã. Na madrugada desta quinta-feira, os EUA realizaram a 12ª noite consecutiva de ataques ao Irã. A ofensiva vem se expandindo do sul do país para áreas do oeste e do centro iraniano. O Comando Central das Forças Armadas americanas (Centcom, na sigla em inglês) afirmou que continuará a "reduzir ainda mais" a capacidade de Teerã de ameaçar o tráfego marítimo na região. Segundo a imprensa estatal iraniana, os militares americanos atacaram duas vezes nesta quinta-feira um alvo militar em Bushehr, próximo à única usina nuclear comercial em operação no país. Além disso, a TV estatal informou que duas pessoas morreram e outras 11 ficaram feridas no que uma autoridade da província de Khuzestan classificou como um ataque com mísseis dos EUA contra a passagem de fronteira de Shalamcheh, com o Iraque. Em resposta, o Irã retaliou contra os países do Golfo Pérsico que abrigam bases americanas. Teerã afirmou ter atacado sistemas de mísseis, armamentos e depósitos de combustível dos EUA na Jordânia, além de posições militares americanas no Kuwait, incluindo o Campo de Al-Adiri, a Base Aérea Ali Al Salem, o Campo Doha e o Campo Arifjan. Já a Guarda Revolucionária relatou uma explosão em uma rota que, segundo ela, estava minada ao sul do Estreito de Ormuz. De acordo com o comunicado, um de três petroleiros pegou fogo, enquanto os outros dois deram meia-volta. Teerã afirmou que o estreito está sob seu controle e "completamente fechado", advertindo que nenhum petroleiro poderá entrar ou sair sem coordenação com o Irã. Antes da escalada no Mar Vermelho, Trump prometeu na quarta-feira destruir uma ponte ou uma usina de energia iraniana sempre que o Irã disparasse contra um navio no Estreito de Ormuz. Em resposta, o comando militar conjunto do Irã advertiu que, se a ameaça de Trump contra infraestrutura fosse executada, as forças iranianas passariam a atacar instalações regionais de petróleo, gás, eletricidade e infraestrutura econômica, impedindo a exportação de "uma única gota de petróleo", segundo a mídia estatal iraniana. Apesar das declarações de Washington de que destruiu a capacidade militar iraniana, Teerã vem demonstrando que ainda mantém capacidade de lançar mísseis e drones, atingindo nesta semana importantes instalações de dessalinização de água e de energia no Kuwait, além de ter atacado ativos militares dos EUA no Kuwait, no Bahrein e na Jordânia. Os dois lados também relataram aumento no número de vítimas. Uma autoridade do Ministério da Saúde iraniano afirmou que 53 civis morreram e 592 ficaram feridos desde o fim do mês passado. Desde que Estados Unidos e Israel iniciaram a guerra, em 28 de fevereiro, milhares de pessoas morreram e milhões foram deslocadas. As Forças Armadas dos EUA afirmam que jamais têm civis como alvo, o que poderia violar as Convenções de Genebra de 1949 sobre a condução humanitária da guerra. Trump, porém, tem ameaçado repetidamente atacar infraestrutura civil, que pode ser considerada alvo legítimo se também estiver sendo utilizada para fins militares, desde que os danos à população civil não sejam considerados excessivos. A guerra também provocou a morte de 18 militares americanos e deixou mais de 450 soldados feridos. Trump participou na quarta-feira de uma cerimônia na Base Aérea de Dover, em Delaware, em homenagem a quatro militares americanos mortos em ataques iranianos contra bases militares nos últimos dias — três na Jordânia e um no Iraque. "Para mim, é uma das coisas mais difíceis de fazer como presidente. Mas precisa ser feita", disse Trump antes de seguir para a cerimônia.