Os houthis do Iêmen, aliados do Irã, anunciaram um bloqueio marítimo à Arábia Saudita nesta segunda-feira, uma medida, se implementada, poderá ampliar as restrições ao mercado global de energia, já fortemente afetado pelo fechamento do Estreito de Ormuz. Entenda o que o bloqueio significa para a guerra entre EUA, Israel e Irã e para a crise global de energia: Qual é o risco para o mercado global de energia? O Iêmen está localizado às margens do Estreito de Bab el-Mandeb - a porta de entrada sul do Mar Vermelho - e o fechamento da passagem abriria uma nova frente na crise energética e no conflito mais amplo entre Irã e EUA. Com Ormuz já comprometido, o Mar Vermelho se tornou uma rota alternativa crucial para o petróleo e outros produtos do Golfo Pérsico. Uma interrupção significativa significaria que as duas principais rotas de exportação de petróleo do Oriente Médio estariam fechadas ao mesmo tempo. O bloqueio parcial do Estreito de Ormuz pelo Irã, após os ataques de EUA e Israel no fim de fevereiro, interrompeu a maior parte das exportações de petróleo e de outros produtos do Golfo Pérsico, elevando os preços e provocando um choque global de energia. Houthis ameaçam fechar Estreito de Bab el-Mandeb — Foto: Valor A Arábia Saudita respondeu desviando mais de 70% de suas exportações diárias habituais de petróleo bruto para o porto de Yanbu, no Mar Vermelho. Os navios que partem de Yanbu com destino à Europa seguem para o norte pelo Canal de Suez. Os que vão para a Ásia seguem para o sul, passando por Bab el-Mandeb. Os embarques a partir de Yanbu atingiram média de 4 milhões de barris por dia nas últimas semanas, segundo dados da Kpler e da Signal Ocean, ante cerca de 973 mil barris por dia um ano antes. O volume total de petróleo que transitou por Bab el-Mandeb alcançou 7,4 milhões de barris por dia em junho, o equivalente a cerca de 7% da produção mundial, segundo dados da Kpler. Um ano antes, eram 4,2 milhões de barris por dia. Isso representou uma tábua de salvação para o mercado de energia, ajudando a conter os preços globais do petróleo. A Arábia Saudita estuda ampliar seu oleoduto até a costa do Mar Vermelho, informou a Reuters na semana passada. Ainda não está claro como os houthis implementarão o bloqueio marítimo contra a Arábia Saudita, seu vizinho ao norte ao longo da costa do Mar Vermelho, nem se isso incluiria a retomada de ataques a embarcações. Quando os houthis iniciaram ataques contra navios no Mar Vermelho, em novembro de 2023, em resposta à guerra de Israel na Faixa de Gaza após os ataques do Hamas, as exportações de petróleo do Golfo fluíam normalmente. Quem são os houthis e qual a relação deles com o Irã? Os houthis surgiram como um movimento militar, político e religioso no norte do Iêmen na década de 1990. Há mais de uma década, eles travam uma guerra civil contra o governo internacionalmente reconhecido e apoiado pela Arábia Saudita, além de terem atacado países vizinhos do Golfo com mísseis e drones. No entanto, a trégua firmada em 2022 entre as partes em conflito foi amplamente respeitada até a semana passada, quando o governo iemenita reconhecido internacionalmente afirmou ter atacado o aeroporto de Sanaa, capital do país, para impedir o pouso de um avião iraniano. Os houthis responsabilizaram a Arábia Saudita pelo ataque e, em resposta, dispararam mísseis contra o aeroporto de Abha, no sudoeste montanhoso do reino. Um alto dirigente houthi, Mohammad al-Farah, integrante do comitê político do grupo, advertiu em entrevista ao site da Press TV, do Irã, que, se a situação continuasse se agravando, Bab el-Mandeb seria fechado. O Irã considera os houthis parte do "eixo da resistência", que também inclui o Hezbollah, do Líbano, e milícias xiitas do Iraque, embora sua relação com o movimento iemenita seja menos estreita do que com esses outros grupos. Os houthis não reconhecem o líder supremo do Irã como sua autoridade religiosa máxima da mesma forma que o Hezbollah e as milícias iraquianas. Suas motivações são principalmente domésticas, embora o grupo seja ideologicamente alinhado a Teerã. Os EUA afirmam que o Irã arma, financia e treina os houthis com ajuda do Hezbollah. Os houthis negam ser um grupo subordinado ao Irã e dizem desenvolver seu próprio armamento. Não está claro até que ponto a posição do grupo sobre Bab el-Mandeb e o Mar Vermelho decorre de suas próprias prioridades estratégicas ou atende aos interesses iranianos. Houthis exibem mísseis em parada militar, em 2023, para celebrar tomada da capital do Iêmen — Foto: Khaled Abdullah/Reuters/Arquivo O que aconteceu quando os houthis atacaram navios no Mar Vermelho anteriormente? Após o ataque do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023 e a devastadora campanha militar israelense em Gaza, os houthis passaram a lançar ataques contra Israel e contra navios no Mar Vermelho, afirmando agir em apoio aos palestinos. Os ataques provocaram graves interrupções no transporte marítimo global, levando a Maersk, a Hapag-Lloyd e outras grandes empresas a desviarem suas rotas pelo sul da África, um trajeto muito mais longo e caro. O tráfego no Mar Vermelho ainda não se recuperou desde então. O movimento pelo Canal de Suez em 2025 ficou 52% abaixo do registrado em 2023 e atingiu o menor nível em pelo menos 50 anos, segundo a Autoridade do Canal de Suez. Uma missão liderada pelos EUA para restabelecer a livre navegação no Mar Vermelho envolveu repetidos ataques contra alvos houthis e uma campanha defensiva que derrubou centenas de drones e mísseis. Mesmo assim, alguns ataques dos houthis continuaram até o verão passado, encerrando-se completamente apenas com o cessar-fogo em Gaza, em outubro. No mês passado, os houthis anunciaram que proibiriam a passagem de navios ligados a Israel pelo Mar Vermelho depois que Israel retomou os ataques militares contra o Irã. No entanto, a ameaça nunca foi colocada em prática, e as empresas Maersk e Hapag-Lloyd estão retomando parte das rotas pelo Mar Vermelho que haviam abandonado durante os ataques houthis do ano passado, informou a Maersk neste mês. Qual foi a postura dos houthis desde o início da guerra contra o Irã? Enquanto o Hezbollah e as milícias iraquianas entraram rapidamente na guerra com ataques de foguetes e drones após os primeiros bombardeios dos EUA e de Israel contra o Irã, os houthis permaneceram relativamente discretos. O líder do grupo, Abdul Malik al-Houthi, afirmou em 5 de março: "Nossos dedos estão no gatilho a qualquer momento, caso os acontecimentos assim o exijam". Comandantes iranianos advertiram repetidamente que os houthis poderiam entrar na guerra. O grupo lançou alguns ataques com mísseis e drones contra Israel no fim de março e no início de abril. O comandante da Força Quds da Guarda Revolucionária, Esmaeil Qaani, afirmou em 1º de junho que os houthis poderiam estrangular o tráfego no Mar Vermelho. Esse cenário pode ter mudado com o anúncio, nesta segunda-feira, de um bloqueio contra a Arábia Saudita, classificada pelo grupo como "criminosa", em retaliação ao que os houthis descreveram como um cerco saudita a seus portos e aeroportos, incluindo o ataque realizado na semana passada.
Entenda como um bloqueio dos houthis no Mar Vermelho afetaria o mercado global de energia
Movimento aliado ao Irã anunciou um bloqueio marítimo à Arábia Saudita













