EUA colocam novas tarifas sobre o BrasilTarifaço ganha tom político e tem minado comércio entre os dois países. Gerando resumoFoto: Jeronimo SofferMatias SpektorFundador da Escola de Relações Internacionais da FGV e associado ao Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri)A nova fase do tarifaço aplicado pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao Brasil acontece num momento contaminado pela campanha eleitoral no País. Por isso, é importante separar o discurso em busca de votos do trabalho de negociação comercial que deve acontecer, avalia o professor Matias Spektor, fundador da Escola de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV) e associado ao Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).A retaliação ameaçada pelo governo brasileiro aos EUA não deve se concretizar, acredita, e as negociações tendem a entrar em momento de espera, por conta do calendário eleitoral. Spektor também defende que a atenção especial de Trump ao Brasil na questão das tarifas tem pano de fundo que pouco tem relação com o País. A preocupação do presidente americano estaria mais em manter a sua influência na região, afastar negócios com a China e promover uma reindustrialização dos EUA.PublicidadeLeia abaixo os principais trechos da entrevista.O que significa essa nova fase de aplicações de tarifas, iniciada com esses 25% às exportações brasileiras aos Estados Unidos? Esse é um processo que culmina em uma dinâmica de uma década — desde a chegada do Trump ao poder pela primeira vez, em 2017 — de instrumentalização do comércio internacional, como forma de retomar a industrialização dos EUA e provocar o isolamento da China.O presidente americano, Donald Trump, tem disputa de poder com a Suprema Corte dos EUA Foto: Saul Loeb/AFPE por que o Brasil tem sido tratado com atenção especial, tendo recebido tarifas maiores e antes de outros países?O Brasil é relevante por competir com os EUA em alguns mercados importantes, em especial, de agricultura. Mas as investigações que levaram às tarifas ao Brasil também foram feitas contra 60 países. O Brasil ainda é o grande parceiro comercial da China na esfera de influência que o Trump quer restaurar na América Latina. O País também era governado pela esquerda quando Trump assumiu pela primeira vez, virou o sinal em 2019 para a direita e, depois, voltou para a esquerda. É um país relevante para as aspirações do Trump. Há uma coisa conjuntural.PublicidadeLeia tambémTarifaço: Lula quer segurar medidas de reciprocidade até as eleições para não dar palanque a FlávioEm meio ao tarifaço dos EUA, Alckmin diz que exportações à Europa cresceram R$ 10 bi em 2 mesesGoverno Lula começa a ouvir setores afetados pelo tarifaço dos EUA nesta semanaEntão, há um componente político forte?Internamente, a política do Trump de fechamento do comércio para promover a industrialização do país foi muito atacada pela Suprema Corte dos EUA. E, na disputa do Trump com a Suprema Corte, ele tomou como decisão encontrar novos argumentos jurídicos ainda não explorados, o que levou a mobilizar essa investigação pela Seção 301, para chegar com uma bateria grande de novas demandas. Essa questão não é sobre o Brasil. O foco não é o Brasil. Trata-se de uma batalha com a Suprema Corte por ter o poder de decisão.Trump também deu argumentos para aplicar as tarifas relacionadas ao tratamento ao ex-presidente Jair Bolsonaro pela Justiça brasileira. Ele também quer influenciar politicamente o Brasil?Trump preferia um Brasil governado pela direita? Sem dúvidas. Mas ele vai se sacrificar pela família Bolsonaro? Não. Ele não gosta de perdedores. Se Flávio Bolsonaro perder as eleições, ele continuará a negociação com Lula. O governo brasileiro entendeu bem essa dinâmica e adota essa atitude de negociação permanente, de nunca fechar a porta de negociação. A única diferença agora é que o governo brasileiro está prestes a enfrentar uma eleição. Essa dinâmica interna muda as coisas, já que o governo vai buscar explorar as tarifas politicamente. Isso é normal.Qualquer governo faria isso, nesse momento, tratando a eleição como prioridade?Sim. Mas, da mesma maneira que o governo brasileiro negociou arduamente lá atrás contra as tarifas de 50%, ele continuará negociando os 25%. A questão é que, pelo vazamento da proposta comercial entregue pelos EUA ao Brasil neste ano, parece algo absolutamente inaceitável, de rendição.PublicidadeO relato é de um pedido de tarifa zero para o etanol americano e de uma abertura grande para importações industriais, áreas que o Brasil tradicionalmente protege bastante.Sim, e sem contrapartidas.E parece algo que nenhum governo brasileiro aceitaria nessas condições?Qualquer governo que não seja do (senador e pré-candidato à Presidência da República) Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Ou com apoio de André do Prado, senador por São Paulo, ou Guilherme Derrite, também senador por São Paulo (ambos pré-candidatos ao Senado).Então o governo deve manter esse status de negociação permanente, mas a prioridade não vai acabar sendo fechar um acordo, ainda mais um que demonstre concessões?Tudo vai ficar parado agora por conta do ciclo eleitoral, mas muito provavelmente volta logo depois.PublicidadeE quanto a esses discursos de possibilidade de retaliação contra as tarifas, mesmo que outros países não tenham seguido esse caminho?Não acredito num cenário de retaliação. Esse é um discurso para consumo doméstico no contexto eleitoral. Nada no comportamento do governo indica que ele vai retaliar, como também não fez no passado recente. Faz parte do processo eleitoral esse discurso.