0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Presidente americano Donald Trump em encontros com o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro — Foto: Ricardo Stuckert / PR — Divulgação RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 16/07/2026 - 12:53 Estratégia de Trump: Tarifas e Pressão sobre a América Latina O analista Uriã Fancelli discute a política tarifária dos EUA sob Donald Trump, destacando sua estratégia de submissão sobre a América Latina como parte de uma doutrina oficial. Ele argumenta que o foco em Lula para justificar o tarifaço é uma narrativa conveniente para isentar Flávio Bolsonaro de responsabilidade, enquanto a pressão sobre o Brasil, uma potência regional, é central para a estratégia americana de restaurar sua preeminência no hemisfério. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO "Quem enxerga nas tarifas aplicadas pelo governo Donald Trump o protagonismo do embate eleitoral entre Lula e Flávio Bolsonaro assistiu apenas o trailer desse filme", diz o analista de relações internacionais Uriã Fancelli. Ele afirma que a relação de Trump com as tarifas é muito anterior ao Brasil e antecede até mesmo sua vida política. Para Fancelli, o que mudou neste segundo mandato foi a finalidade da ferramenta. Segundo ele, Trump passou a usar as tarifas para forçar submissão, sobretudo na América Latina, e essa estratégia virou documento oficial. A Estratégia de Defesa publicada em janeiro determina a aplicação do que a Casa Branca batizou de Corolário Trump à Doutrina Monroe, com o objetivo de restaurar a preeminência americana no hemisfério. O analista observa ainda que o próprio presidente americano adotou o apelido criado pela imprensa para essa estratégia: "Doutrina Donroe". — Digo submissão, e não alinhamento ideológico, por uma razão simples. Washington convive muito bem com Delcy Rodríguez, na Venezuela, hoje talvez a maior representante da continuidade do chavismo no continente, porque ela entrega obediência. O Telegraph mostrou que aliados de Trump venceram todas as sete eleições presidenciais realizadas na região desde a sua posse. Nesse tabuleiro, acredito que a submissão do Brasil é o prêmio mais valioso disponível. Estamos falando da maior economia da América Latina, de um país com protagonismo no Brics, que criou o Pix e enfrentou os americanos na OMC no debate sobre economia digital. Um país desse tamanho decidindo sozinho é justamente o que essa doutrina não tolera. Na avaliação do analista, esse contexto desmonta a narrativa do secretário de Estado americano, Marco Rubio, que atribuiu o tarifaço ao ego de Lula. — E o detalhe saboroso é que quem desmente o secretário é o próprio governo dele, por meio do parecer técnico publicado pelo USTR, que abre afirmando que as práticas brasileiras prejudicam os Estados Unidos há décadas. Décadas abrangem os governos FHC, Lula, Dilma, Temer e Jair Bolsonaro. Basta olhar cada um dos alvos para entender. O Pix, formalmente acusado de ser gratuito demais, foi criado em 2020, ainda no governo anterior. As decisões do Judiciário que tanto incomodam Washington não mudam com eleições, porque nossas instituições são independentes. A presença do Brasil na lista americana de observação sobre propriedade intelectual existe desde 2007, cinco presidentes atrás. E os acordos do Mercosul com México e Índia levaram décadas para ser negociados. Ou seja, o documento descreve essencialmente políticas de Estado, por mais questionáveis que possam ser. Nenhum desses alvos nasceu no governo atual, e nenhum deles desaparecerá quando houver mudança de governo. A pergunta que fica, diz Fancelli, é: por que personalizar tudo em Lula? Na visão do analista, a resposta é que essa personalização blinda Flávio Bolsonaro da responsabilidade política pelo tarifaço, enquanto Washington entende que a submissão que procura sairia mais barata com ele no Planalto. — Foi o próprio Flávio Bolsonaro quem afirmou, em carta, ter uma equipe de transição à disposição de Trump. A família dele comemorou o tarifaço do ano passado antes de calcular o custo político desse gesto. E foi ele quem abraçou publicamente a hipótese de operações militares americanas na Baía de Guanabara. No fim, a lógica se fecha sozinha. Se cada um dos alvos das tarifas sobrevive a qualquer troca de governo, o motivo delas precisa estar em outro lugar. Está no tamanho do Brasil e no incômodo que esse tamanho causa. Exportações de bens de capital crescem para os EUA apesar da retração do comércio bilateral, mostra Icomex Fancelli lembra que, em 1987, quando ainda era apenas um empresário, Trump pagou anúncios de página inteira nos principais jornais americanos acusando os aliados dos Estados Unidos de enriquecerem à sombra da proteção militar americana. Desde então, passou décadas repetindo, em entrevistas, que taxar importações resolveria esse problema. O analista afirma ainda que a convicção de Trump em relação às tarifas permaneceu inalterada, apesar do acúmulo de evidências sobre os efeitos negativos dessa estratégia para a economia americana. — Tarifa é imposto de importação. Ela é recolhida na alfândega americana e diluída no preço pago pelo consumidor. Uma análise do Cato Institute, um centro de pesquisa liberal que ninguém acusaria de antitrumpismo, encontrou repasse de até 96% desse custo ao consumidor americano. Eu acredito, inclusive, que a paixão dele pelo instrumento é genuína. O problema é que se trata de uma paixão comprovadamente ineficiente, cuja fatura acaba chegando ao carrinho de compras do próprio eleitor que ele jura proteger.