Lula e Flávio inventam narrativas falaciosas sobre o tarifaço para enrolar eleitoresA questão central é que nem a ‘química’ de Lula nem o lobby de Flávio parecem capazes de determinar o ímpeto protecionista de Trump, que é global. Encerrada nesta terça-feira, 7, a audiência em Washington, o Brasil entra numa semana delicada de sua relação comercial com os Estados Unidos. O USTR indicou 15 de julho como prazo para eventual relatório com recomendações sobre medidas comerciais contra o Brasil.PUBLICIDADEA investigação é ampla, e talvez ampla demais. Alcança comércio digital, pagamentos eletrônicos (Pix), tarifas preferenciais, anticorrupção, propriedade intelectual, etanol e desmatamento. Mistura temas técnicos, divergências regulatórias, interesses empresariais e irritações políticas.Há questões jurídicas relevantes quanto ao procedimento, à proporcionalidade e à própria legitimidade da investigação. Há também temas sobre classificação tarifária, exclusões de produtos e compatibilidade das medidas com as normas multilaterais e da própria regulamentação interna norte-americana. Tudo isso certamente levará a contestações e litígios futuros.O presidente Trump, durante entrevista na Casa Branca Foto: Saul Loeb/AFPAo final, o relatório do USTR será uma recomendação à Presidência dos Estados Unidos. A decisão de adotá-lo ou modulá-lo caberá a Donald Trump. E, então, o risco é uma avaliação apressada, superficial, que pode impor custos duradouros à relação bilateral com o Brasil.Sabe-se que Itamaraty e MDIC já dedicaram dezenas de horas a negociações com o USTR. Até agora, porém, não se chegou a resultados concretos. A dificuldade não decorre apenas da complexidade dos temas, mas também da imprevisibilidade do lado norte-americano. Ao que se ouve, os Estados Unidos ora não especificam claramente o que desejam (até porque os EUA mantêm superávit crescente com o Brasil), ora formulam pretensões inspiradas em acordos assimétricos firmados com países da América Central.PublicidadeBizarro é, mas há gente importante em Washington que ainda não entendeu que o Brasil não é uma pequena economia sem negociadores experientes em busca de proteção tarifária. Ou que o país não pode assinar concessões regulatórias abrangentes, que violam compromissos internacionais e seriam rapidamente questionadas no Judiciário brasileiro. Ou que implicariam mudanças legislativas que nenhum negociador sério poderia prometer em nome do Congresso Nacional.O melhor cenário, nos próximos dias, seria algum avanço capaz de mitigar tarifas discriminatórias contra o Brasil. Pode haver espaço para exclusões de produtos, revisão de listas, modulação de alíquotas ou compromissos técnicos que reduzam danos setoriais. Em 2025, viu-se que tarifas indiscriminadas afetaram exportadores relevantes, cadeias industriais brasileiras e empresas norte-americanas que dependem de insumos importados do Brasil.A ameaça tarifária contra o Brasil não é única. Nas últimas semanas, os EUA abriram outras investigações 301, pretextando trabalho forçado, ou excesso industrial, ou apoio alemão ao setor farmacêutico. A errática política comercial dos EUA tem obviamente provocado reações. A China escolheu o enfrentamento e continua em posição instável, embora sustentada por uma estratégia de longo prazo e instrumentos próprios de retaliação. A Índia negocia com paciência, enquanto diversifica parceiros. A África do Sul aprendeu que a deferência excessiva diante de Trump pode produzir apenas humilhação televisionada. A Argentina, rendida, aceitou concessões e fundos do FMI para atravessar sua própria tempestade.O caso europeu talvez seja mais instrutivo. A Europa continua dependente dos Estados Unidos, mas essa dependência passou a ser percebida como vulnerabilidade estratégica. A ameaça recente contra a Espanha, por divergências sobre gastos de defesa na OTAN, reforça a conclusão de que Trump não é causa da crise, mas sintoma de mudança profunda nas relações internacionais.PublicidadeLeia tambémSetor privado vê Flávio deslocado do debate nos EUA e com atuação constrangedora; leia bastidorConcessão sobre redução da tarifa do etanol não está na mesa de negociações com EUA, diz ministro335 empresas e entidades se manifestam sobre tarifas de Trump a produtos brasileiros; veja listaNeste sentido, a conclusão europeia parece ser que alguma forma de desamericanização se tornou inevitável. Não uma ruptura, mas uma redução - planejada, gradual, discreta - de dependências críticas. Há vários sinais neste sentido: governos europeus discutem soberania digital, reforçam data centers locais, estimulam suas empresas de inteligência artificial, reduzem dependência de grandes plataformas norte-americanas e adotam soluções abertas em sistemas públicos.CONTiNUA APÓS PUBLICIDADECanadá e México, por razões ainda mais óbvias, caminham na mesma direção. Mesmo presos à geografia, buscam diversificar comércio, investimentos, cadeias produtivas e alianças estratégicas, sem provocar Washington. Seu objetivo é reduzir vulnerabilidades diante de um parceiro cuja política econômica passou a oscilar entre ameaças, barganhas e ressentimento.Essa discussão interessa ao Brasil. Diversificação comercial tornou-se necessidade estratégica. O mesmo vale para autonomia tecnológica, soberania sobre dados, defesa cibernética e capacidade industrial. Num mundo fragmentado e multipolar, a dependência de uma potência imprevisível torna-se risco quotidiano.O enfrentamento atual chega em momento ruim. O Brasil está concentrado em eleições gerais, e o debate público se perde em slogans, bravatas e pequenas histerias. Mas é urgente, neste cenário internacional, um debate sobre a inserção do País. A pergunta crucial não é apenas como ficamos diante da decisão de 15 de julho, mas como o Brasil pretende se posicionar num mundo em que autonomia deixou de ser lugar-comum diplomático e voltou a ser ativo estratégico.
Opinião | Decisão sobre tarifas comerciais contra o Brasil será apenas de Trump. E esse é o grande risco
Temor é que, apesar dos argumentos brasileiros, venha uma avaliação apressada, superficial, que pode impor custos duradouros à relação bilateral








