Convém começar com um agradecimento. Ao anunciar a tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, o USTR (Escritório do Representante do Comércio dos Estados Unidos) publicou também uma lista de exceções que cobre dois terços das nossas exportações. Café, suco de laranja, carne, ferro-gusa, aviões e peças de aeronaves: tudo o que encarece o café da manhã do eleitor americano ou paralisa fábricas foi cuidadosamente poupado. Washington acredita ter divulgado um ato de força; divulgou um inventário de vulnerabilidades. Raras vezes um governo entrega ao adversário, com tamanho zelo burocrático, o mapa dos pontos onde mais teme ser atingido.

O tarifaço não tem lógica econômica. Os Estados Unidos têm superávit de US$ 14 bilhões com o Brasil, e nem a aritmética tosca que trata déficit como prova de deslealdade se aplica ao nosso caso. Trata-se de punição política, e o Brasil é o caso de teste: se a tarifa derrubada pela Suprema Corte puder ser reerguida pela Seção 301 contra nós, será reerguida contra todos.

O governo brasileiro fala em OMC e em lei de reciprocidade. Está certo, e é pouco. O registro na OMC é necessário e inócuo, com o órgão de apelação paralisado por obstrução dos EUA. A reciprocidade opera no tempo do direito, com prazos e consultas, enquanto Trump opera no tempo do fato consumado. Responder a um método de choque com um método de protocolo é aceitar perder.