A adoção, pelo governo, de reciprocidade ante a escalada do tarifaço dos Estados Unidos e o recurso à Organização Mundial do Comércio para contestar a legalidade das tarifas de 12,5% e 25% impostas pelo governo de Donald Trump a produtos do Brasil são corretos do ponto de vista político, diante das limitações das reações restritas às negociações, apontam especialistas. A principal evidência de acerto da nova tática foi o pedido formal da China na OMC para participar das consultas iniciadas pelo Brasil, um indicativo de que a reação brasileira não está geopoliticamente isolada. Empresários receiam os efeitos da reciprocidade, mas o ministro da Fazenda, Dario Durigan, assegura que as ações serão analisadas caso a caso e o governo ouvirá setores e empresas antes de decidir.

Segundo o economista Bruno De ­Conti­, professor do Instituto de Economia da Unicamp, o movimento dos Estados Unidos é um ataque explícito ao governo Lula e parte de um esforço para eleger Flávio Bolsonaro. Trata-se, portanto, de uma agressão à soberania nacional, a exigir respostas à altura. “É evidente que, neste momento de tensões geopolíticas exacerbadas, o Brasil não deve entrar em disputas desnecessárias. Mas, neste caso, o governo não pode receber o golpe sem reagir”, sublinha. Tanto a ação inicial, por parte dos EUA, quanto a reação, pelo lado brasileiro, são sobretudo políticas. Há, claro, consequências econômicas e o governo brasileiro terá de adotar medidas para atenuar seus efeitos. O mais importante no momento, ressalta o economista, é, no entanto, impedir que Trump dê sequência às intervenções que tem feito de forma escancarada na América Latina para colocar na presidência governos submissos. “A guerra não é por mais ou menos impostos: é uma guerra pelo futuro de um país que tenta ser soberano”, dispara o professor da Unicamp.