Recentemente, o Brazil Journal publicou um artigo notável, escrito por Hugo Rodrigues, cujo título abre uma análise fundamental para entender o Brasil dos últimos tempos. O Brasil é talento sem método. E talento só não basta. No texto, dizia que “em 2002, quando o Brasil ganhou o penta havia uma sensação difusa de que o País, finalmente, encontrava seu local no mundo”. Afinal, o Real dera certo, a eleição de Lula e uma transição de governo tranquila mostravam uma democracia a pleno vapor e tínhamos um time que jogava bola de verdade. A pergunta é: se não avançarmos, corremos o risco de retroceder? Foto: Adobe StockPUBLICIDADENem o hexa, nem o crescimento vieram. E assim continuará até que aprendamos a construir um jogo de longo prazo. “O que nos faltou foi aceitar que talento sem processo produz lampejo, não legado”. E isso muitos atletas e países já sabem há um bocado de tempo. Só avança e ganha quem cultiva os fundamentos, alavancando os talentos e as vantagens comparativas, muitas vezes construídas a partir de uma base mais limitada. PublicidadeA medalha de ouro foi para Rebeca Andrade, mas não a Copa para Neymar. Os países que avançam têm sempre políticas que visam persistentemente ao longo prazo, e não a uma marca para o governo de plantão. E isso, antes de tudo, significa construir as condições para o crescimento sustentado da produção por trabalhador. O Brasil há muitos anos cresce muito menos do que a média global. Nossa produtividade agregada não avança e, olhado de hoje, isso deverá continuar a ocorrer. Entretanto, um olhar mais acurado revela muitas áreas/setores/empreendimentos nos quais houve a construção de avanços notáveis, comparáveis às melhores práticas globais. Considere-se a seguinte lista: Sistema eletrônico de votação; Tecnologia bancária digital, anterior e base do Pix; Sistema Universal de Saúde (SUS); Bolsa Família; Tecnologia de exploração de petróleo em águas profundas — Petrobras; Décadas de crescimento persistente da produtividade agrícola; Certas empresas como Embraer e Weg. PublicidadeEsta pequena lista mostra casos de sucesso, frutos de projetos de longo prazo cuidadosamente desenvolvidos, muitos dos quais (mas não todos, como o Bolsa Família) mantidos atualizados pelo constante enfrentamento de novos desafios que sempre surgem ao longo do tempo. A pergunta que se coloca é por que rotas bem-sucedidas como essas não se multiplicaram a ponto de transformar em sucesso o crescimento agregado do País, como já mencionado. Mais ainda, e mais relevante: se não avançamos, podemos retroceder? Essas questões serão endereçadas na nossa próxima coluna.