Gerando resumoOs vilões de diferentes levantamentos feitos sobre o ambiente de negócios brasileiros variam de posição, mas sempre foram mais ou menos os mesmos. Envolviam o chamado “manicômio tributário”, insegurança jurídica, infraestrutura precária, burocracia pública, juros nas alturas e outros antagonistas que travam o crescimento das corporações e, por consequência, do País. Novos personagens, porém, entraram recentemente nesse enredo e vão tornar o ambiente de negócios ainda mais complexo no próximo governo: as incertezas globais, em proporções inéditas.PUBLICIDADENa prática, ter um ambiente de negócios mais complexo significa menor atratividade de investimentos. No ano passado, por exemplo, o Brasil continuava entre os últimos colocados no ranking global de competitividade: na 58ª posição entre 69 nações avaliadas pelo Institute for Management Development (IMD), em parceria com a Fundação Dom Cabral (FDC).Os números chegam a ser piores quando abertos por segmentos, como educação básica (69º), habilidades linguísticas (69º), produtividade da força de trabalho (67º), mão de obra qualificada (68º) e custo de capital (69º). Em infraestrutura está em 58º lugar. Esse resultado é decorrente da falta de reformas estruturais que sustentem o desenvolvimento econômico no longo prazo. Com o cenário global mais incerto e a falta de perspectiva de resolução da situação fiscal, esse quadro fica ainda mais difícil do ponto de vista de investimentos (a taxa de investimento do Brasil terminou o ano de 2025 em 16,8%, muito aquém das necessidades do País). PublicidadeO conturbado ambiente de negócios brasileiro é um dos pontos que especialistas irão discutir no primeiro encontro do Brasil Adiante, série de debates promovida pelo Estadão, nos meses que antecedem as eleições de outubro, para construir uma agenda integrada e executável de soluções para os primeiros 24 meses do próximo governo.Ataques em Teerã, em março: quatro choques inflacionários em seis anos Foto: ATTA KENARE /AFP“Nos últimos seis anos, tivemos quatro choques importantes e todos com efeito inflacionário: pandemia, guerra da Ucrânia, tarifaço e guerra no Irã”, diz David Kallás, professor de estratégia no Insper. “A instabilidade e a incerteza são novos modelos mundiais e a tendência é de que os investimentos entrem em compasso de espera.”Jorge Arbache, professor convidado da Fundação Dom Cabral e especialista em economia do desenvolvimento, comércio e produtividade, dá exemplos do que tem acontecido na prática. “A União Europeia anunciou hoje (quinta, 20) mudanças sobre ETS (Sistema de Comércio de Emissões, da sigla em inglês), que é a política do mercado de carbono na região”, diz ele. “Só que tem um monte de setores econômicos que estavam investindo e acreditavam que a política fosse seguir conforme havia sido anunciada e eles ocupariam o lugar dos maiores emissores. Agora, tudo muda.”Outro caso, ele afirma, é o do desmonte do IRA (Lei de Redução da Inflação, também da sigla em inglês), o pacote climático e de subsídios aprovado pelo Congresso dos EUA na gestão Joe Biden. No início de seu mandato, Donald Trump editou decretos obrigando as agências federais a paralisarem o repasse de fundos bilionários do IRA que não tivessem sido totalmente pagos. “Um monte de gente iniciou projetos de bilhões de dólares e, de repente, entra um novo presidente que cancela tudo”, afirma Arbache. “Isso sem contar com várias intervenções de mercado, que vão de tentativa de controle na taxa de juros a guerras, que mostram quão generalizada está a incerteza.”PublicidadeSaiba mais:Agenda do presidente para 1.º de janeiro de 2027Riscos aumentam e BC pode pausar corte de juro após junho, diz Solange Srour, do UBS GWMBrasil aos olhos do mundo: percepção de risco melhora em meio à instabilidade globalÉ exatamente a previsibilidade — ou a falta dela — que tem determinado a postergação de decisões no ambiente de negócios, diz João Mendonça, sócio do escritório de advocacia Felsberg Associados, especializado em Direito societário e fusões e aquisições. “Tanto no Brasil quanto no mundo, tudo está mais incerto, mas o importante, quando falamos de eleições no Brasil, é o quanto de previsibilidade vai ser possível alcançar para atrair o investidor”, diz Mendonça. “O Brasil é um país excelente, mas falta previsibilidade básica.”Isso inclui, afirma, o ambiente legal. De jurisprudências revistas a mudanças em marcos legais e à morosidade de decisões finais, tudo reduz a previsibilidade para que o investidor, sobretudo o estrangeiro, meça seu retorno e atravanque a decisão de colocar seus recursos no País. “No caso da reforma tributária em andamento, por exemplo, não temos ainda definida a alíquota efetiva de tributação”, diz ele. “Pelo que estamos vendo na prática, vai ser mais de 28% e ainda não dá para dizer que o custo tributário será reduzido ou que a vida das empresas vai ficar mais fácil.”Unanimidade: ajuste fiscal a quem quer que seja eleitoA questão tributária impacta diretamente o equilíbrio fiscal, a única unanimidade entre os especialistas: para todos, seja quem for o eleito, será obrigatório resolver a tendência de alta do endividamento público. Sem isso, é impossível baixar os juros, que têm machucado famílias e empresas. PublicidadeCONTiNUA APÓS PUBLICIDADE“O que une empresas e famílias hoje é o mesmo denominador: o custo do dinheiro”, diz Ricardo Knoepfelmacher, o Ricardo K, sócio da RK Partners e um dos mais conhecidos reestruturadores de empresas do País. “Endividamento e inadimplência podem sufocar — e, em casos extremos, colapsar — o consumo das famílias, componente que responde por cerca de 62% do PIB brasileiro. Ou seja, estamos falando de um risco sistêmico, não de casos isolados.”Um estudo da RK Partners com 382 empresas mostrou que 24% delas não conseguem sequer pagar os juros da própria dívida. “Elas estão se alavancando para sobreviver, num ciclo perigoso”, diz ele. Com as famílias, a situação é ainda pior. Quase metade da população adulta está com o nome sujo e o comprometimento de renda familiar com o pagamento de dívidas chegou a 29,2%, o que deixa margem mínima para qualquer imprevisto. Para as empresas, isso significa que os consumidores não irão às lojas e, se o fizerem, terão grandes riscos de não pagar pelas compras.Por outro lado, afirma Ricardo K, o fato de a Selic cair de forma muito gradual é bom. “Baixar os juros rápido demais seria trocar um problema por outro: a inflação voltaria, corroendo ainda mais o poder de compra de quem já está no limite”, diz. “O que falta é o outro lado da equação: equilíbrio fiscal que dê ao Banco Central o espaço necessário para reduzir a Selic de forma consistente e sustentável.”Para ele, enquanto esse ambiente não se consolida, empresas precisam fazer o dever de casa, com venda de ativos, redução de alavancagem e melhora de eficiência de margem. “A reforma tributária ajuda no médio prazo, e a inteligência artificial pode ser uma aliada importante na redução de custos e ganho de produtividade”, diz ele. “Mas nenhuma das duas resolve o problema imediato do serviço da dívida.” PublicidadeO avanço no uso da inteligência artificial tende a azeitar o caminho para alguns e a tornar o ambiente mais desafiador para outros. Ao cenário já complexo e desafiador, acrescentam-se novas dificuldades pela frente, como aquecimento global, envelhecimento da população e mudanças no perfil do trabalhador.Em outras palavras, curto prazo vai ser duro para empresas e famílias, e o início do próximo governo terá desafios a mais na agenda.Veja os detalhes e painéis do primeiro encontroData: 27 de maio⁣;Local:⁣ Espaço JK Eventos⁣;Endereço: Rua Professor Atílio Innocenti, 780 - Itaim Bibi;Horário: Das 8h às 11h30;Onde assistir? Transmissão ao vivo nas plataformas do Estadão.Painel 1: O Estado brasileiro cabe no Brasil que queremos construir?PublicidadePainelistas: Marcos Mendes, economista do Centro de Diálogo de Políticas Públicas; Jéssika Moreira, CEO do Movimento Pessoas à Frente; e Pedro Parente, economista, empresário, ex-ministro da Casa Civil, do Planejamento e de Minas e Energia e ex-presidente da Petrobras. Mediação de Álvaro Gribel, colunista do Estadão.Painel 2: Judiciário: reformar para recuperar a confiança da população.Painelistas: Carlos Ari Sundfeld, especialista em Direito Administrativo e presidente da Sociedade Brasileira de Direito Público (SBDP); Oscar Vilhena Vieira, especialista em Direito Constitucional, ex-Procurador do Estado de SP e professor fundador da FGV Direito SP; e Magno Karl, líder do Movimento Livres e membro da Coalizão Ninguém Acima da Lei. Mediação de Carolina Brígido, colunista do Estadão.Veja o cronograma do Brasil Adiante27 de maio: Encontro 1: Eixo I: Estabilidade Institucional e Fundamentos do Crescimento;11 de junho: Encontro 2: Eixo II: Capital Humano e Coesão Social (Educação e Saúde);23 de julho: Encontro 3: Eixo II: Capital Humano e Coesão Social (Segurança Pública e Crime Organizado);19 de agosto: Encontro 4: Eixo III: Produtividade, Infraestrutura e Sustentabilidade;27 de agosto: Encontro 5: Apresentação do documento consolidado, divulgação da agenda e fechamento do projeto;Novembro: Entrega da agenda de soluções ao presidente eleito.Publicidade