Aluguel alto leva chef do Didier a fechar as portas. Decisão inspira debate sobre concentração de cozinhas e a necessidade de explorar outros bairros 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Didier Labbé, diante do restaurante na Vinícius de Moraes — Foto: Marina Calderon RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 04/07/2026 - 15:58 Fechamento de restaurante em Ipanema acende debate sobre alta gastronomia no Rio O fechamento do restaurante Didier em Ipanema, devido ao alto custo do aluguel, reavivou o debate sobre a concentração de alta gastronomia na Zona Sul do Rio de Janeiro. A chef Kátia Barbosa critica a preferência por bairros como Ipanema e Leblon, destacando o potencial de outras regiões como Flamengo e Laranjeiras. A discussão gira em torno do custo-benefício desses locais e a necessidade de explorar novas áreas da cidade. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Depois de uma semana com filas na porta, o restaurante Didier se despediu no último domingo (28) do endereço que ocupava na Rua Vinicius de Moraes, em Ipanema. Havia se mudado para lá em setembro de 2022, vindo do Jardim Botânico, mas sucumbiu ao alto custo do aluguel numa área nobre e cobiçada. O chef Didier Labbé, que comandava a casa, reconhecida pela qualidade da cozinha francesa, ainda não decidiu para onde irá. O anúncio do fechamento motivou uma publicação nas redes sociais feita pela chef Kátia Barbosa. Ela questionou o que faz de alguns poucos bairros da Zona Sul — Ipanema, Leblon, Gávea e Jardim Botânico —, os queridinhos da alta gastronomia carioca. “O Rio é muito maior do que o nosso mapa costuma mostrar”, escreveu, alimentando uma discussão a respeito do custo-benefício desses endereços, onde os aluguéis podem chegar a R$ 70 mil. A proximidade com uma clientela de alto poder aquisitivo, que inclui turistas hospedados nos grandes hotéis, é apontada por alguns como a principal vantagem de estar nesses endereços. Outros acreditam que a razão é o prestígio de estar numa região da cidade para a qual todas as atenções estão voltadas — inclusive as dos importantes guias gastronômicos, cuja validação funciona como um carimbo de qualidade. “Jornalistas, guias, chefs, donos de bar: quando foi a última vez que vocês cruzaram o túnel pra comer?” provoca Kátia Barbosa, para quem existe vida gastronômica fora do circuito da Zona Sul. — A vida fora desse eixo pulsa. Basta a gente ter coragem — garante a chef, que está “por opção” há 24 anos na Praça da Bandeira, onde mantém duas casas: Aconchego Carioca e Sofia. Kátia Barbosa, do Aconchego Carioca e Sofia, na Praça da Bandeira — Foto: Guito Moreto Kátia aponta Flamengo, Laranjeiras, Glória, Catete e regiões de Botafogo como redutos de grande potencial gastronômico. Para demonstrar que existe a mobilidade da clientela, diz que nas suas casas recebe gente de bairros como Ipanema e Leblon. A chef lembra ainda que já teve outros estabelecimentos na Barra da Tijuca, em Copacabana e no Norte Shopping, mas preferiu fechá-los para se manter no atual endereço, que, segundo ela, é estratégico, por estar perto do Centro, da Zona Sul e da Avenida Brasil. — Foi uma opção difícil porque não é fácil trazer o cliente, o crítico e o influenciador para cá — contou Kátia, que deixou o Aconchego Carioca aos cuidados da sócia para cuidar mais de perto do Sofia, aberto em 2023 na Rua Barão de Iguatemi, e especializado em comida brasileira. Conta não fecha O chef francês Didier Labbé, que escolheu o Rio para viver há 18 anos e é casado com uma brasileira, entregou as chaves semana passada. Pagando um aluguel de R$ 25 mil, por um espaço de 70 metros quadrados, onde cabiam 60 mesas, disse que a conta não estava fechando no fim do mês. Antes de jogar a toalha, afirma que tentou negociar com o proprietário, mas não deu. Bem-humorado, comentou que a postagem de Kátia Barbosa, de quem é amigo, gerou um bochicho que ajudou a alavancar o movimento de despedida do seu restaurante. Sobre a provocação dela, de que há vida gastronômica fora da Zona Sul, disse concordar. — Tem sim. Eu adoro ir à Tijuca e a outros lugares da Zona Norte onde há bons restaurantes. É muito divertido e diferente da Zona Sul. O que falta é um pouco de valorização (desses espaços) — avalia. Ainda sobre a provocação da amiga, disse não descartar a possibilidade de sair da Zona Sul, desde que encontre um local que o agrade. Ele citou o Centro, a Lapa e a Glória como locais de sua predileção. Estrelas reunidas Uma consulta ao Guia Michelin, referência mundial da boa gastronomia, ajuda a compreender a predileção dos chefs estrelados por determinados bairros. Dos seis estabelecimentos com uma estrela, nenhum está fora do circuito da Zona Sul. O mesmo acontece com os dois que têm duas estrelas e os oito com o título Bib Gourmand (casas com maior custo-benefício), entre os quais o Didier. Dos 28 restaurantes recomendados, há três fora da rota estrelada: dois em Santa Teresa e um no Centro. Este último é o Lilia, que se instalou há nove anos na Rua do Senado, bem antes da badalação que fez da via a mais “cool” do planeta, segundo a revista inglesa Time Out. Mesmo sem querer colocar água na fervura da polêmica sobre exploração de outras regiões da cidade fora da Zona Sul, o chef e restaurateur Lucio Vieira reconhece que foi atraído pelo aluguel barato. Lucio, do Lilia, que se destacou mesmo fora do circuito da Zona Sul — Foto: Caiano Midam/Divulgação Este último é o Lilia, que se instalou há nove anos na Rua do Senado, bem antes da badalação que a fez se tornar a mais “cool” do planeta, segundo a revista inglesa Time Out. Mesmo sem querer colocar água na fervura da polêmica sobre exploração de outras regiões da cidade fora da Zona Sul, o chef e restaurateur Lucio Vieira reconhece que foi atraído pelo aluguel barato. — Já fechei restaurante no Centro. Então, a gente não pode botar a culpa só no aluguel. É preciso olhar para questões internas, de maneira um pouco mais madura, administrativamente falando, e ver que de repente a gente errou. Mas esse endereço escolhi pela possibilidade de pagar o aluguel, infinitamente mais barato que no Leblon, por exemplo, e num lugar com fluxo de pessoas provenientes de empresas grandes em volta (como a Petrobras). Isso ajudou no sucesso do Lilia, além da falta de concorrência — disse, se referindo ao seu cardápio que aposta numa cozinha autoral e contemporânea. Pedro Hermeto, dono do Aprazível — também listado como de boa cozinha e bom preço pelo Guia Michelin —, há quase 30 anos em Santa Teresa, não sentiu na época o peso do aluguel, porque o restaurante se instalou num imóvel próprio. Ele também defende a exploração de áreas novas. — A cidade é muito vasta, geograficamente, com muitas possibilidades. Os espaços na Zona Sul estão acabando. Então é natural as pessoas irem buscar imóveis com valores mais acessíveis, que não onerem tanto o custo de operação e que estejam em áreas novas. A gente viu isso acontecer com Botafogo, que virou um polo gastronômico por conta dos preços mais acessíveis de imóveis — argumenta. — Nós morávamos naquela casa, o que facilitou muito, e o restaurante virou um destino numa época em que o carioca nem conhecia muito o bairro — completou. Vira destino Com vários estabelecimentos distribuídos pela cidade, como o Giuseppe Grill, no Leblon, o Xian, no Centro, e o Nolita, na Barra da Tijuca, o restaurateur Marcelo Torres é daqueles que defendem a exploração das diferentes regiões. — Eu acho que quando você faz um produto bacana, ele vira destino. Eu tenho um exemplo que é o Xian (no Bossa Nova Mall, no Santos Dumont). É um restaurante que fica no Centro, que está combalido, e mesmo assim só vive cheio. As pessoas vão para lá, mesmo sendo fora dos circuitos. Ao mesmo tempo, Torres se queixa de uma certa invisibilidade à qual são relegados estabelecimentos localizados fora do chamado eixo gastronômico. — Tenho muitas operações na Barra, que acaba ficando meio fora desse circuito, e quando você vai ver as premiações ninguém dá atenção para as casas de um lugar que se tornou uma opção bastante interessante — lamenta, garantindo não entender por que isso acontece. Adriana levou Pescados na Brasa para o Leblon depois do sucesso no Riachuelo — Foto: Divulgação No caminho oposto Adriana Veloso, do Pescados na Brasa, fez o caminho oposto ao sugerido por Kátia Barbosa. Depois de sete anos no Riachuelo, resolveu abrir uma filial no Leblon, mesmo pagando um aluguel três vezes mais caro. Entretanto, a comerciante garante que não foi atrás de um público novo, mas sim para atender à demanda de uma clientela que já frequentava a casa na Zona Norte, mas se queixava da distância. — Na verdade, eles querem muito vir para cá (para o Riachuelo), mas, por terem de enfrentar engarrafamento, acabam optando por ficar por lá (na Zona Sul) — diz a maranhense criada no Pará, que, no Riachuelo, oferece, além da gastronomia regional, uma experiência cultural, como a dança do carimbó, sempre no segundo domingo do mês.