Entender os seres vivos tomando como base a seleção natural normalmente funciona que é uma beleza. Mas cientistas são humanos, você sabe, e, durante muito tempo, foram quase sempre membros do sexo masculino também. O que acabou criando uma perspectiva "machocêntrica" que pode distorcer as coisas um pouco –ou mesmo um muito.

Não há de ser surpresa nenhuma se eu disser que essa distorção fica particularmente gritante quando estamos falando do comportamento sexual. Machos e fêmeas, afinal, estão presentes numa ampla gama de espécies (nem de longe todas, é bom que se diga) e, muitas vezes, parecem ter interesses evolutivos bastante diferentes.

Segundo uma corrente de pensamento, que já cheguei a reproduzir um tanto acriticamente no passado ("mea culpa, mea maxima culpa"), a diferença seria resultado direto do tamanho dos gametas, ou células sexuais. O mais comum, de fato, é que machos produzam uma quantidade muito grande de gametas pequenos e móveis –espermatozoides como os da nossa espécie são o exemplo clássico–, enquanto as fêmeas produzem células sexuais bem maiores e mais escassas (é a visão que costumamos ter dos óvulos).

A ideia é que isso leva a consequências comportamentais claras. Os óvulos, por seu tamanho, carregam nutrientes essenciais para o desenvolvimento do embrião, o que também significa um investimento alto de energia por parte do organismo da fêmea. Assim, ela tenderia a escolher com muito mais seletividade os machos com os quais acasala, justamente para não desperdiçar seus preciosos gametas com parceiros incapazes de gerar prole saudável; e a dedicar mais tempo e esforços para cuidar da prole.