Quem se acostumou a considerar como verdade absoluta o chamado conceito biológico de espécie, que muita gente ainda aprende na escola (algo como "são membros da mesma espécie os organismos capazes de se acasalar entre si e produzir descendentes férteis") talvez esteja meio confuso com os últimos anos de pesquisas sobre o DNA da nossa espécie e de nossos primos extintos.
Afinal de contas, cada vez mais fica claro que o Homo sapiens e outros membros do gênero Homo geraram bebês entre si, por meio de uniões interespécies que aconteceram repetidas vezes ao longo da Era do Gelo. Ora, se o resultado desses "casamentos" deixa marcas no nosso material genético até hoje, o correto não seria classificar todos esses ancestrais dentro da mesma espécie? Descendentes férteis foram gerados com sucesso estrondoso, certo?
Bem, não exatamente. O que nos acostumamos a enxergar como uma barreira intransponível entre espécies na verdade é, dependendo do contexto, um muro esburacado ou uma peneira, bastante permeáveis a trocas. No caso de mamíferos como nós, um caso extremo é o dos felinos, que já tive o prazer de discutir em outra coluna para esta Folha.
Existem raças de gatos domésticos derivadas do cruzamento com espécies selvagens, como o serval (Leptailurus serval), que divergiram dos ancestrais dos bichanos domesticados há mais de 10 milhões de anos. Em termos evolutivos, é muito tempo, ao menos da perspectiva da nossa linhagem –é bem possível que, nessa profundidade temporal, os antepassados de gorilas, chimpanzés e seres humanos nem tivessem se separado ainda.










