Fazia tempo que eu queria reler "Sapiens", livro do historiador israelense Yuval Noah Harari que acabou virando a maior referência pop sobre evolução humana em boa parte do mundo. Faz mais de uma década que tive contato com a obra pela primeira vez, quando Harari ainda não era o superstar em que acabou se transformando, e me recordo com clareza do gosto de cabo de guarda-chuva na boca ao terminar a leitura. Havia várias coisas esquisitas e questionáveis ali.

Como a popularidade dos livros dele não dá sinais de arrefecer tão cedo, e como a nova leitura que fiz confirmou a sensação estranha original e me ajudou a organizá-la na cabeça, achei que poderia ser útil explicar porque é preciso encará-lo com muitos grãos de sal. Em suma, se você quer dar um livro sobre a trajetória evolutiva da nossa espécie para um adolescente curioso, talvez seja melhor não presenteá-lo com "Sapiens".

Falemos, primeiro, do quadro geral. Quatro fatores principais me fazem ficar com muitos pés atrás diante da obra de Harari. E o estranho é que eles até pareceriam, à primeira vista, ser contraditórios entre si. Nossos Quatro Cavaleiros do Apocalipse Sapiens são: 1) simplificação excessiva; 2) repetição de exemplos ad nauseam; 3) uma certa volúpia da especulação desvairada; 4) uma alergia preocupante a citar fontes e à atualização.