A linguagem humana está em formação. Os neandertais que habitam o romance "Os Imortais", de Paulliny Tort, trocam informações e argumentos úteis à sobrevivência do clã, mas o traquejo verbal não está entre seus pontos fortes.

Os poucos espécimes de Homo sapiens que também habitam o romance são mais loquazes, mas ouvidos pelos neandertais só produzem algaravia —o tema do livro é o encontro dessas duas espécies tão semelhantes quanto diferentes, em tempo e local vagos, algumas dezenas de milhares de anos atrás.

Não se sabe qual era o grau de sofisticação da linguagem oral daquelas gentes, nossos antepassados –embora os neandertais tenham se extinguido cerca de 40 mil anos atrás, parte de seu genoma vive em nós.

Ainda não tínhamos começado a deixar rastros de palavras pelo mundo, o que vem a ser a própria definição de pré-história. Isso faz com que o risco vertiginoso corrido por "Os Imortais", praticamente a cada linha, seja o do anacronismo.

Se os personagens não dominam as palavras que o narrador em terceira pessoa usa para encenar sua subjetividade e visão de mundo, como não impor o presente ao passado, caindo no discurso científico, de um lado, e na fábula ou na farsa, do outro?