Passei quatro anos de minha vida sem comer carne e penso seriamente em voltar ao vegetarianismo. Culpa da Paulliny Tort, escritora que lançou recentemente o romance Os Imortais (Editora Fósforo). O livro narra o dia a dia de um grupo neandertal que, em sua saga de viver-sobreviver, vai se relacionando com o mundo, a natureza, outros animais, incluindo alguns homo sapiens.
É ficção, mas tudo o que somos está lá. Política, disputas de poder, relações predatórias com o meio, injustiças, crueldades e violências em fraturas expostas. Milhares de anos se passaram e continuamos como os personagens centrais da história, brutalizados e animalescos.
O texto da Paulliny é tão natural quanto o cheiro de sangue fresco, presente em tantas páginas, e que tirou meu apetite para qualquer carne desde o começo da leitura. Quando como, faço com culpa. Sinto piedade dos bichos daqui e dos que a Paulliny criou e matou. Eu sou o homem de neandertal catando caramujo na beira do rio, certo, menino Ney (Matogrosso)?
Luto para manter vivo um senso agigantado de piedade, faço isso há cinquenta anos e quase nunca é fácil. Sou como um dos personagens centrais de Os Imortais. Que eu não acabe como ele.
Comprei a obra da Paulliny Tort na Feira do Livro, que aconteceu recentemente no Pacaembu, em São Paulo. A vendedora falou “ótima escolha, me fez repensar toda a vida”. O depoimento é tão bonito quanto o romance e resume, afinal, o que deve ser literatura.










