São mães tateando uma nova forma de educar, porque também foram criadas num ambiente machista 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Sobrevivente de estupro coletivo em 2016 — Foto: Márcia Foletto/Agência O GLOBO RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 02/07/2026 - 17:16 "Educação Antimachista: Como Famílias e Escolas Podem Transformar" O artigo discute a importância de educar meninos em um ambiente menos machista, destacando o papel crucial das famílias e escolas. Com o aumento de casos de violência de gênero entre jovens de classe média, questiona-se como evitar criar misóginos. Redes sociais e a busca por pertencimento agravam o cenário, mas iniciativas educativas mostram que mudanças são possíveis, promovendo respeito e igualdade desde a infância. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO ‘Chega estampado, manchete, retrato/Com venda nos olhos, legenda e as iniciais/Eu não entendo essa gente seu moço/Fazendo alvoroço demais.’ Com a sensibilidade ímpar de dar voz a mulheres, Chico Buarque lançou “Meu guri”, em 1981. Uma mãe ingênua e/ou protetora em excesso romantiza todos os fatos envolvendo o filho, ainda que nitidamente criminosos. Uma ilusão que cada vez menos se restringe a mães periféricas. A Vara da Infância e da Juventude, geralmente tomada por casos de adolescentes assaltantes cooptados pelo tráfico, tem registrado mais processos envolvendo menores de classe média, com pai e mãe presentes, alunos de boas escolas, que viajam de férias para o exterior, com acesso a todas as oportunidades. Boa parte deles envolvida em violência de gênero. A cada notícia de montagem de nudes com fotos de colegas de turma em algum colégio particular ou de estupro coletivo em bairros de maior poder aquisitivo, a preocupação chega a muitas famílias que imaginavam nunca ter de pisar numa delegacia além de registrar um roubo de carro ou furto de celular. Para quem tem filhas, é um medo desbloqueado dentro de uma lógica já conhecida, de agressão a mulheres. É mais do mesmo, só com cara nova. Para pais e mães de meninos, um questionamento se impõe nos dias de hoje: como educar meu filho para ser respeitoso com mulheres? Nesta sociedade ainda tão machista, como não criar um misógino? A motivação pode ser apenas evitar que o filho tenha de prestar contas de delitos. Mas há também a intenção genuína de criar homens melhores, especialmente entre as mães que, vamos lembrar, antes de tudo são mulheres. Ouvi algumas delas. Uma está num momento difícil do relacionamento com o filho. Sempre foram parceiros, até de jogar bola, e ela tomou um susto quando ouviu um “cala a boca, você é uma inútil que não bota dinheiro em casa”. Outra vive embates constantes com o filho diante de falas que enxerga como agressivas, preconceituosas e machistas, mas sente alívio ao ver que ele é respeitoso com a namorada. São mães tateando uma nova forma de educar, porque também foram criadas num ambiente machista. A essa conscientização feminina, de adultas e jovens, que cada vez mais se levantam contra a violência, somam-se outros dois fatores que deixam o cenário mais desafiador — um antigo e um novo. O antigo é a eterna busca por pertencimento, um dos pilares da adolescência. Não à toa, seja em favelas pela cidade ou apartamentos da Zona Sul, os casos de estupro coletivo têm sempre participação de adolescentes. É um pavoroso rito em que, mesmo quem não concorda, não resiste a fazer parte do grupo. O fato novo é a influência das redes sociais, com a proliferação de discursos misóginos sob o nome de masculinidade. Muitos adolescentes inseguros se sentem acolhidos ali. Nessa busca por afirmação, hoje não basta cometer o crime, é preciso filmar e espalhar as imagens, ainda que produzindo provas contra si próprios. É o mesmo raciocínio para a montagem revoltante de nudes. O feito consiste em divulgar a crueldade. Nunca se falou tanto em educação de meninos. Um avanço, uma vez que o costumeiro doutrinamento de meninas para que limitem comportamentos, vida social e roupas é uma repressão inútil, que nada resolve. Além da óbvia necessidade de regulação das redes sociais, que fazem enorme estrago, há um papel fundamental das famílias. O psicólogo Renato Caminha, especialista em crianças e adolescentes, chama a atenção para o básico que a gente custa a enxergar. Num momento de autonomia crescente das mulheres, meninos ainda são educados para a brutalidade. Para eles, em 2026, ainda falta conseguir expressar emoções além da raiva. Não aprendem a lidar com tristezas e frustrações, nem a resolver conflitos com diálogo. Há pouco tempo viralizaram na internet vídeos absurdos com adolescentes simulando socos, chutes e até facadas, numa ilustração de como reagiriam se uma menina dissesse “não”. Não se chega a isso de repente. O combate à misoginia começa nas pequenas coisas dentro de casa, construindo um ambiente onde tarefas domésticas são obrigação de todos, e piadas retratando mulheres como inferiores não têm nenhuma graça — como não têm de ter. E, quando o pior acontece, pais e mães que entram em negação, alegando que seus meninos são vítimas e tentam desmentir fatos, podem tentar a postura de estar ao lado e dar apoio para o filho assumir responsabilidades. E há as escolas, com o poder de mudar o jogo. No mês passado fui ao Ginásio Comenius, em Bangu, conhecer um projeto da incansável Verônica Marcílio, criadora do Favelivro, que instala bibliotecas em favelas do Rio. Ao longo de meses, professores e alunos tiraram um tempinho em sala de aula para falar sobre violência doméstica e feminicídio. Verônica conta que a transformação mais impressionante veio dos meninos. Eles perceberam ali como reproduziam falas misóginas e machistas. Em muitos casos, enxergaram a agressividade do pai com a mãe, que passaram a ver como inaceitável. Decidiram que queriam ser diferentes. Questionaram seus comportamentos e ficaram mais amigos das meninas. As brigas físicas e verbais entre eles mesmos desapareceram. A educação de meninos não resolve tudo, e eles não podem ser vistos como os grandes responsáveis por criar um mundo menos machista. Mas é uma enorme janela de oportunidade. Não é alvoroço demais.
É preciso orientar o filho misógino
São mães tateando uma nova forma de educar, porque também foram criadas num ambiente machista







