A conclusão consta nos documentos apresentados pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) à Justiça no âmbito da operação, que investiga um suposto esquema de lavagem de dinheiro por meio da empresa de ônibus Transunião Transportes S.A. Segundo os investigadores, a crise começou após integrantes da facção passarem a desconfiar da administração financeira de Adauto Soares Jorge, então diretor-presidente da Transunião e apontado pelas autoridades como representante de Senival na empresa. Operação mira empresa de ônibus ligada ao PCC em SP De acordo com o Ministério Público, integrantes do PCC descobriram que Adauto supostamente desviava recursos da empresa para abastecer um "caixa dois" destinado à campanha de reeleição de Senival em 2020 e, ao mesmo tempo, deixava de fazer repasses que seriam de interesse da facção. Os documentos afirmam que a situação desencadeou uma ruptura de confiança entre os envolvidos. Diante da suspeita de desvios, o operador do PCC Leonel Moreira Martins, conhecido como "Cabeça Branca", teria sido encarregado de resolver a questão por meio de um "debate" — nome dado pela facção aos seus julgamentos internos, conhecidos como "tribunal do crime". Segundo o MP-SP, ao fim desse julgamento clandestino, tanto Adauto quanto Senival teriam sido "condenados à morte" pelo PCC. Os investigadores afirmam, porém, que o vereador foi perdoado pela organização criminosa. A decisão, de acordo com os autos, teria sido motivada por sua influência política e pela possibilidade de ressarcir parte do prejuízo apontado pelos integrantes da facção. Como contrapartida ao perdão, Senival teria sido obrigado a concordar com a execução de Adauto, apontado pelas autoridades como seu principal representante na Transunião. Em nota, a defesa de Senival afirmou que "recebeu com profunda indignação a notícia da decretação de sua prisão temporária no âmbito de investigação em curso." 'A medida causa enorme surpresa, sobretudo porque foi determinada em um momento extremamente sensível, às vésperas do período eleitoral, circunstância que inevitavelmente desperta questionamentos e exige que todos os fatos sejam rigorosamente esclarecidos pelas autoridades competentes. O vereador reafirma que confia na Justiça e tem absoluta convicção de que, ao longo da investigação, ficará demonstrada a inexistência de qualquer conduta ilícita de sua parte. Desde o primeiro momento, sua defesa técnica está adotando todas as providências jurídicas cabíveis para ter acesso integral aos autos, compreender os fundamentos da decisão e apresentar os esclarecimentos necessários, exercendo plenamente o direito constitucional ao contraditório e à ampla defesa. Senival Pereira de Moura sempre pautou sua trajetória pública pelo compromisso com a população, pela transparência e pelo respeito às instituições democráticas. Por isso, recebe a investigação com serenidade, certo de que a verdade prevalecerá." Veja quem são os alvos dos mandados de prisão: Senival Moura: vereador do PT é apontado como o detentor do "controle fático" da estrutura financeira da Transunião.Lourival Monário ("Orelha"): atual presidente, acusado de ser nomeado pelo PCC para garantir o escoamento de recursos ilícitos.Jair Ramos de Freitas ("Cachorrão"): diretor informal e apontado como executor do homicídio de 2020.Leonel Moreira Martins ("Cabeça Branca"): Supervisor operacional que atuava como o interlocutor direto do PCC dentro da empresa, transmitindo ordens da facção.Devanil de Souza Nascimento ("Sapo"): motorista e homem de confiança de Senival, identificado como partícipe no plano de execução de Adauto Quem é Senival Moura Em seu sexto mandato na Câmara Municipal, Senival ocupa atualmente os cargos de 1º secretário da Mesa Diretora e de presidente da Comissão de Trânsito, Transporte e Atividade Econômica, colegiado responsável por discutir e fiscalizar políticas relacionadas ao setor de transportes na capital paulista. Segundo a investigação, o vereador construiu sua trajetória política na Zona Leste após atuar junto aos antigos operadores de transporte alternativo, conhecidos como "perueiros", durante o processo de regularização do setor no início dos anos 2000. Os investigadores afirmam que sua relação com o transporte de passageiros é ainda mais antiga e remonta à década de 1970, quando ele explorava linhas clandestinas que ligavam os bairros de Guaianases ao Itaim Paulista, também na Zona Leste da capital, a partir de veículos Kombi. O nome do parlamentar, porém, não aparece pela primeira vez nas investigações envolvendo a Transunião. Investigação Em 2022, os investigadores já apontavam que Adauto atuava como um dos "laranjas", sendo um "testa de ferro", ou seja, um dos representantes de Senival Moura na direção da empresa Transunião, que seria utilizada para a lavagem de dinheiro de integrantes do PCC Na ocasião, a polícia apontou Jair Ramos de Freitas, conhecido como "Cachorrão", como o autor dos disparos que mataram o ex-diretor. No dia do crime, Adauto foi levado até a padaria por Devanil Souza Nascimento, o "Sapo", apontado como motorista de confiança de Senival e também preso na operação de 2022. O Ministério Público sustenta que o crime foi motivado por uma "quebra de confiança" financeira. Integrantes da facção teriam descoberto que Adauto estaria desviando valores da Transunião para subsidiar um "caixa dois" para a campanha de reeleição de Senival Moura em 2020, em detrimento dos repasses que deveriam ser feitos ao PCC. Diante disso, o operador Leonel Martins ("Cabeça Branca") teria sido escalado para resolver a questão por meio de um "debate" (tribunal do crime), que resultou na ordem de execução (leia mais abaixo). Quatro anos depois, a nova operação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) sustenta que reuniu elementos em celulares apreendidos que colocam novamente Senival no centro do caso. Embora não apareça no contrato social, mensagens analisadas mostram que movimentações financeiras informais e repasses de grandes quantias em dinheiro — como pagamentos semanais de R$ 70 mil para "acertar os cara" — dependiam de sua anuência ou intervenção prévia. Segundo os investigadores, mensagens analisadas durante a investigação indicam que movimentações financeiras informais e repasses de recursos dependiam de sua autorização prévia. Nas comunicações entre os operadores do esquema, de acordo com os autos, Senival era frequentemente identificado pelos apelidos de "presidente", "véio", "velhinho" ou simplesmente "vereador". Patrimônio milionário Planilhas internas apreendidas pela investigação também apontam que o parlamentar aparecia como "cooperado oficial" de pelo menos 13 ônibus da frota. Segundo os investigadores, a expressão era utilizada para identificar o verdadeiro beneficiário econômico dos veículos, embora eles estivessem registrados em nome de terceiros ou da própria empresa. Apesar disso, os rendimentos eram sistematicamente desviados para o vereador, segundo a investigação. As apurações da operação deflagrada nesta quinta indicam que o esquema utilizava familiares e pessoas de confiança para ocultar patrimônio e interesses econômicos ligados ao vereador. Os autos citam a participação da esposa de Senival, Maria de Lourdes Andrade de Moura, de seus filhos Ítalo e Vitor Andrade de Moura, e de seu irmão, Rubens Pereira de Moura, em movimentações e registros societários suspeitos. Além do núcleo familiar, o assessor parlamentar Adão Lino dos Santos e o motorista Devanil Sousa Nascimento, o "Sapo", são apontados como peças operacionais que asseguravam o controle fático do vereador sobre a empresa e suas subsidiárias. Relatórios de inteligência financeira mencionados na investigação apontam que Senival movimentou cerca de R$ 4,39 milhões entre 2019 e 2022. Segundo os investigadores, haveria uma diferença superior a R$ 2,4 milhões entre os valores movimentados e os rendimentos oficialmente declarados pelo vereador. Os autos também mencionam a posse de imóveis de alto padrão, entre eles um apartamento na Vila Madalena, na Zona Oeste da capital, e uma propriedade rural em Extrema, no sul de Minas Gerais. Segundo o Ministério Público, Adauto Soares Jorge atuou inicialmente como um dos "laranjas" de Senival Moura e, com o tempo, consolidou-se como seu representante na gestão da Transunião. Foi nesse período que integrantes do PCC passaram a ocupar grande parte das cotas vinculadas à empresa de ônibus. De acordo com os investigadores, membros da facção passaram a se desentender com Adauto por considerarem que ele favorecia os chamados cotistas perueiros e realizava repasses financeiros a Senival em detrimento dos interesses do PCC. O estopim da crise teria sido a descoberta de que Adauto desviava dinheiro da empresa para abastecer um "caixa dois" destinado à campanha de reeleição do vereador em 2020. Senival foi reeleito, em 2025, para o seu sexto mandato na Câmara Municipal em São Paulo.