A operação da Polícia Civil, na manhã de quinta-feira (25), que prendeu o vereador da capital Senival Moura (PT) e outras duas pessoas, revelou uma disputa por R$ 15 milhões que teriam sumido dos cofres de uma empresa ligada ao Primeiro Comando Capital (PCC). Senival é apontado como uma das figuras centrais de um suposto esquema de lavagem de dinheiro da facção envolvendo a Transunião Transportes, que opera 50 linhas de ônibus na Zona Leste da cidade. Um documento, redigido por um integrante do PCC e encontrado pelos investigadores na residência de Jair Ramos de Freitas, o "Cachorrão", aponta um rombo de R$ 15 milhões na chamada "garagem" da Transunião Transportes, dos quais apenas R$ 2 milhões teriam chegado aos acionistas. Foi essa carta que ajudou a Polícia Civil e o Ministério Público de São Paulo a fechar o cerco sobre Senival Moura. Na manhã desta quinta-feira, o vereador foi preso em uma operação que também deteve outras duas pessoas e cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços da capital paulista e do município de Extrema, em Minas Gerais. Outras duas pessoas com mandado de prisão expedido não foram encontradas e seguem foragidas. A carta diz: "Em dezembro, entrou 17 milhões para garagem para ser distribuído nas remissões. Nós constatamos que esse dinheiro não foi dividido nas remissões, eles só jogaram 2 milhões. Eles não deram respaldo dos 15 milhões também". Segundo a polícia, o conteúdo do documento demonstra tanto a ligação de Cachorrão com o PCC quanto a "provável motivação" do homicídio de Adauto Soares Jorge, então presidente da empresa de ônibus Transunião Transportes S.A., em março de 2020. Cachorrão é apontado como o executor do crime. Em 2022, ele chegou a ser preso pelo caso, mas foi solto, e nesta quinta-feira foi detido novamente. As suspeitas sobre Senival A investigação que levou a Polícia Civil e o MP-SP a apontar Moura como participante do esquema começou após a execução de Adauto, morto a tiros no estacionamento de uma padaria no Lajeado, bairro da Zona Leste, em março de 2020. Com a vítima, foram apreendidos celulares e pen drives que revelaram detalhes sobre a administração da empresa, o controle financeiro e as transferências de valores para criminosos ligados ao PCC. 'Salve do PCC': Manuscrito apreendido pela Polícia Civil menciona desvios de dinheiro da Transunião — Foto: Reprodução O documento encontrado na casa de Cachorrão narra o desvio dos R$ 15 milhões e cita nominalmente Leonel Moreira Martins como um dos envolvidos. "Estamos passando a ciência dos fatos que ele está envolvido, ele levantou mais de R$ 1 milhão nos ônibus dos acionistas, sendo repartido para os mesmos. Leonel ficou com valor de R$ 200 mil. Só ele sabia das transações, sendo que nem os acionistas tinham ciência de que seus ônibus estavam sendo refinanciados", diz o texto. A carta ainda indica que Adauto havia sinalizado esses desvios e que agia sob ordens de Leonel e Senival na movimentação financeira da empresa. As apurações do MP e da Polícia Civil concluíram que a Transunião era controlada por pessoas com "vínculos diretos ou indiretos com o PCC", que exerciam "ingerência sobre a atividade econômica da empresa, controlando a administração da frota operacional, a circulação de recursos financeiros e a redistribuição de receitas". Na prática, segundo as investigações, Senival funcionava como um dos donos da empresa. A ligação foi comprovada por mensagens e análise de contas bancárias. Em diversas conversas, Leonel Moreira Martins, apontado como "operador" do esquema e intermediário dos repasses entre a Transunião e o vereador, cita Senival ora como "vereador", ora como "veio". Era Leonel quem pressionava Adauto a liberar transferências, que depois eram repassadas a Senival. Em uma das mensagens, ele pede: "não se esquece dos 20, já conversamos sobre isso com o veio". Em outra: "5 mil nesta conta na quarta-feira, já conversei com o veio". Em agosto de 2019, Leonel chegou a solicitar um depósito de R$ 53 mil, dizendo já ter falado "com o vereador". O nome de Senival também aparecia com frequência em planilhas internas da empresa, listado como responsável por ao menos 13 ônibus diferentes. Um dos veículos estava vinculado ao CPF de Maria de Lourdes de Moura, esposa do vereador. Outros constavam em nome da empresa Trans Brasil LTDA, mas com a inscrição "Senival" ao lado na planilha. Uma busca e apreensão no escritório do vereador, em 2022, encontrou documentos relacionados à exploração do transporte coletivo vinculado à Transunião. Segundo a polícia, não há provas de que Senival e Leonel "tenham sido afastados da dinâmica da empresa" após a morte de Adauto. O que ocorreu, de acordo com as investigações, foi uma "reconfiguração do controle fático da Transunião", com Lourival Monário assumindo a presidência da empresa após o assassinato. A Prefeitura de São Paulo afirmou que as linhas não serão prejudicadas e seguirão circulando normalmente, e que a gestão municipal irá decretar uma intervenção na concessionária, nos moldes do que foi feito com a Transwolff e a Upbus em 2024 — empresas que também tiveram vínculos com o crime organizado expostos pela Operação Fim da Linha. Em nota, a defesa do vereador afirmou que recebeu "com profunda indignação a decretação de sua prisão temporária" e que ele não exerce "qualquer função de gestão, direção ou ingerência na empresa há mais de seis anos". O que diz a defesa de Senival "O vereador Senival Pereira de Moura recebeu com profunda indignação a notícia da decretação de sua prisão temporária no âmbito de investigação em curso. A medida causa enorme surpresa, sobretudo porque foi determinada em momento sensível, diante da aproximação do período eleitoral, e porque o Vereador não exerce qualquer função de gestão, administração, direção, representação ou ingerência na empresa investigada há mais de 6 anos, circunstâncias que serão devidamente demonstradas nos autos. Senival reafirma sua confiança na Justiça e tem absoluta convicção de que, ao longo da investigação, que já perdura há 4 anos, ficará demonstrada a inexistência de qualquer conduta ilícita de sua parte", diz o advogado Marcio Sayeg em nota. "Desde o primeiro momento, sua defesa técnica está adotando todas as providências jurídicas cabíveis para ter acesso aos autos, compreender os fundamentos da decisão e apresentar os esclarecimentos necessários, exercendo plenamente o direito constitucional ao contraditório e à ampla defesa. Senival Pereira de Moura sempre pautou sua trajetória pública pelo compromisso com a população, pela transparência e pelo respeito às instituições democráticas. Por isso, recebe a investigação com serenidade, certo de que a verdade prevalecerá. Reitera, por fim, que colaborará integralmente com as autoridades, prestando todos os esclarecimentos que forem solicitados e demonstrando sua inocência pelos meios legais adequados", acrescentou. Em nota, o Partido dos Trabalhadores afirmou que "acompanhará atentamente o desenrolar das investigações" e que "determinou o encaminhamento do caso à Comissão de Ética", o que poderá culminar inclusive em sua expulsão, mas que será assegurado a ele o amplo direito de defesa, o contraditório e o devido processo legal. "O Diretório Municipal do PT de São Paulo não compactua com qualquer prática ilícita e reafirma que todos os fatos devem ser rigorosamente apurados pelas autoridades competentes, com respeito à lei e às garantias constitucionais. O Diretório Municipal do PT de São Paulo reitera seu compromisso intransigente com o combate ao crime organizado, apoia ações das forças de segurança, como a Operação Carbono Oculto, e defende o fortalecimento dos instrumentos de enfrentamento às organizações criminosas, entre eles a aprovação, pelo Senado Federal, da PEC da Segurança Pública proposta pelo Governo Federal", afirma o partido.