O vereador de São Paulo Senival Moura (PT) foi preso ontem por suspeita de participar de um esquema de lavagem de dinheiro da facção Primeiro Comando da Capital (PCC) por meio da empresa de ônibus Transunião, que opera 50 linhas na Zona Leste da capital e recebeu repasses de R$ 397,3 milhões da prefeitura em 2025. A operação deflagrada ontem é mais uma investigação a expor conexões de concessionárias que operam o sistema de transporte coletivo da cidade com o crime organizado — em 2024, a Operação Fim da Linha mostrou o elo entre a Upbus e a Transwolff com integrantes da organização criminosa. As apurações do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e da Polícia Civil apontam que a Transunião era usada por pessoas com “vínculos diretos ou indiretos com o PCC” que exerciam “ingerência sobre a atividade econômica da empresa”. Descrito como uma das figuras centrais do esquema, Senival atuava como um dos donos da empresa e tinha poder sobre a movimentação financeira da companhia. Também foram presos ontem Jair Ramos de Freitas, conhecido como “Cachorrão”, e Devanil de Souza Nascimento, o “Sapo”. São alvos de mandados de prisão Leonel Moreira Martins e Lourival de França Monario, mas até ontem eles ainda não haviam sido detidos. Lourival está fora do país, segundo investigadores. A investigação que levou a polícia a mirar em Senival foi iniciada após a execução de Adauto Soares Jorge, então presidente da Transunião, em março de 2020. Ele foi morto a tiros no estacionamento de uma padaria na Zona Leste de São Paulo. Com a vítima, foram apreendidos celulares e pen drives que possibilitaram a descoberta de várias informações relativas à empresa: como funcionava a administração e o controle financeiro e as transferências de valores para criminosos ligados ao PCC. A ligação do vereador petista com a empresa foi constatada por meio de mensagens e análise de contas bancárias. Em diversas conversas, Leonel Moreira Martins — apontado como “operador” dos repasses entre a Transunião e Senival — cita seu nome, ora como “vereador”, ora como “veio”. Era Leonel quem pedia, com frequência, que Adauto liberasse transferências de dinheiro — que depois, descobriu a polícia, eram repassadas para Senival. Em uma das mensagens obtidas pela investigação, Leonel pede a Adauto: “não se esquece dos 20, já conversamos sobre isso com o veio (Senival)”. Ele também diz: “5 mil nesta conta na quarta-feira, já conversei com o veio”. Em agosto de 2019, por exemplo, Leonel chega a mandar que Adauto deposite R$ 53 mil e diz que já falou “com o vereador”. Entenda a investigação — Foto: Arte O Globo Segundo a Polícia Civil, Adauto foi morto após desentendimentos internos sobre a condução financeira da empresa, e suspeitas de desvios de recursos que beneficiariam o grupo de Senival. A morte dele, ainda de acordo com as investigações, possibilitou uma mudança de controle dos fluxos econômicos da Transunião. Segundo o inquérito, a empresa tinha uma estrutura de “comando informal”, associada a pessoas com possível vínculo com o PCC, e sua atividade econômica no setor de transporte público coletivo da capital servia como forma de lavar dinheiro para a facção . Outros indícios da ligação de Senival à Transunião são os ônibus da empresa. De acordo com as apurações, o nome do vereador aparecia com frequência em planilhas da empresa como responsável pela frota de veículos. Em uma delas, que elencava os “cooperados oficiais”, a placa dos veículos e a linha que era operada por cada um, ao menos 13 ônibus diferentes eram relacionados ao nome Senival. Em outros casos, os ônibus estavam registrados no nome da empresa Trans Brasil LTDA, mas ao lado havia a inscrição “Senival” na planilha. Além disso, um dos veículos estava ligado ao CPF da mulher de Senival, Maria de Lourdes de Moura. Já outra parte dos veículos estava de fato vinculada ao CPF do vereador na planilha, ainda que eles fossem oficialmente registrados em nome da Transunião. Uma busca e apreensão no escritório do petista, em 2022, também encontrou documentos relacionados à exploração do transporte coletivo vinculado à Transunião. Segundo a Polícia Civil, Senival movimentou R$ 4,39 milhões entre 2019 e 2022. Deste total, R$ 2,47 milhões não possuem origem declarada, o que indica uma dissociação entre sua renda formal como agente político e a circulação efetiva de valores. Foram identificados imóveis de alto padrão em seu nome ou vinculados a ele em Juquehy, no litoral de São Paulo, e na capital, além de uma propriedade rural em Extrema, Minas Gerais. Ontem, a prefeitura de São Paulo afirmou que as linhas não serão prejudicadas e seguirão circulando normalmente, e que irá decretar uma intervenção na concessionária, nos moldes do que foi feito na Transwolff e na Upbus em 2024. Já a defesa do vereador disse que recebeu “com profunda indignação a decretação de sua prisão temporária” e que Senival — que exerce seu sexto mandato e ocupa os postos de primeiro secretário da Mesa Diretora da Câmara e de presidente da Comissão de Trânsito e Transporte — não exerce “qualquer função de gestão, direção ou ingerência na empresa há mais de seis anos”. Carta da facção Uma carta manuscrita feita por um integrante do PCC, encontrada pelos investigadores na casa de Jair de Freitas, o Cachorrão — preso ontem e apontado como executor de Adauto —, sugere que o homicídio ocorreu porque ele estaria desviando valores para Senival, sem dar respaldo ao comando da facção. Segundo os investigadores, o teor do texto tem características dos “salves” da facção, que são uma espécie de mensagem que o comando do grupo criminoso circula entre seus integrantes para passar recados e ordens. No documento, há o relato de um desvio de R$ 15 milhões que teria ocorrido no âmbito da denominada “garagem”. O valor deveria ter sido destinado aos acionistas da Transunião, mas só foram distribuídos R$ 2 milhões. O texto aponta Leonel Moreira Martins como um dos envolvidos no desvio. “Em dezembro, entrou 17 milhões para garagem para ser distribuído nas remissões. Nós constatamos que esse dinheiro não foi dividido nas remissões, eles só jogaram 2 milhões. Eles não deram respaldo dos 15 milhões também”, afirma. A carta indica que Adauto teria sinalizado esses desvios, e que estaria cumprindo ordens de Leonel e Senival na movimentação. Para a polícia, a carta sugere que Jair de Freitas, o Cachorrão, tinha ligação com o PCC. Não há indícios, segundo a apuração, de que Senival e Leonel “tenham sido afastados da dinâmica da empresa” após a morte de Adauto e, na realidade, teria havido uma “reconfiguração do controle fático da Transunião”. Depois que Adauto morreu, Lourival Monario assumiu a presidência formal da empresa, mas Cachorrão passou a ser o “presidente oculto”. Na operação de ontem, um policial civil foi encontrado em um imóvel ligado a Lourival, que segue foragido. A Corregedoria da Polícia Civil vai apurar se existe alguma relação entre ele e os investigados no caso. A operação de ontem também resultou na apreensão de drogas, quatro fuzis e equipamentos utilizados para o preparo e embalagem de entorpecentes.