Fosse um balé, a coreografia teria sido impecável. No mesmo dia em que Keir Starmer anunciou sua renúncia como primeiro-ministro britânico, desembarcava em Londres o também trabalhista Andy Burnham, ex-prefeito da Grande Manchester, para assumir uma cadeira no Parlamento e iniciar campanha para suceder Starmer. Dançaram este pas-de-deux na véspera do aniversário de dez anos do brexit, numa coincidência cheia de significados.
Nem a sucessão de seis primeiros-ministros em uma década e a reviravolta nas expectativas de um novo ciclo trabalhista, como nem mesmo o crescimento da ultradireita de Nigel Farage, explicam o que se passa no Reino Unido hoje. Se, em 2016, 52% da população optou pela saída do país da União Europeia, contra 48% que votaram pela permanência, hoje as pesquisas invertem o cenário: se houvesse novo referendo, 52% seriam favoráveis à volta ao bloco e só 31% seriam contrários.
Burham se apresenta como um salvador da pátria, quando a boa memória nos diz que ele ajudou a isolar a esquerda do Partido Trabalhista —inclusive o líder Jeremy Corbyn—, e sua propalada flexibilidade política lhe rende o apelido de "camaleão". Se vier a ser primeiro-ministro, talvez não traga algo tão diferente do apático Starmer.












