Keir Starmer anunciou, nesta segunda-feira, a sua demissão dos cargos de primeiro-ministro do Reino Unido e de líder do Partido Trabalhista. O anúncio foi feito pelo próprio, à porta do número 10 de Downing Street, no mesmo local onde, menos de dois anos antes, prometeu “mudança” e uma “renovação nacional” para o país.A renúncia, já esperada, acontece no mesmo dia em que Andy Burnham, ex-presidente da Câmara de Manchester, toma posse como deputado na Câmara dos Comuns, o que lhe permitiria contestar formalmente a posição de Starmer, cuja impopularidade contribuiu para a derrota do partido de centro-esquerda nas últimas autárquicas, realizadas em Maio.No púlpito, o primeiro-ministro cessante afirmou que o momento de “maior orgulho da sua vida” foi ter chegado ao Governo após a vitória trabalhista nas eleições legislativas de 2024 e recordou que a subida do Labour ao poder, após 14 anos de governos conservadores, representou uma mudança significativa na história recente do Reino Unido.Para Starmer, tratou-se de uma oportunidade para melhorar a vida de milhões de pessoas, e, sublinhou, foi esse o motivo que o levou a entrar na política. No discurso, em Londres, para além de ter elencado os feitos do seu executivo, dentro e fora de portas, destacou ainda as dificuldades enfrentadas no percurso até à vitória eleitoral de 2024.“Há seis anos, herdei um Partido Trabalhista politicamente, financeiramente e moralmente falido”, enfatizou, acrescentando que lhe disseram repetidamente que o partido estava acabado e condenado a ficar para trás na história. Ainda assim, conseguiu uma maioria confortável no Parlamento.Não obstante, Keir Starmer assumiu que a pergunta que o Labour lhe estava agora a colocar é se seria “a pessoa mais indicada” para liderar o partido nas próximas eleições legislativas, previstas para 2029. “Ouvi a resposta do meu grupo parlamentar a essa questão e aceito-a de bom grado. Todas as decisões que tomei tiveram como objectivo colocar em primeiro lugar o país que amo. É por isso que vou demitir-me do cargo de líder do Partido Trabalhista. Esta manhã falei com sua majestade, o rei, para o informar sobre a minha decisão”, anunciou.Depois, Starmer explicou que pediu ao Comité Executivo Nacional do Partido Trabalhista para “definir um calendário”, com o período de candidaturas ao seu posto a abrir no dia 9 de Julho, para que o processo de sucessão esteja concluído antes das férias de Verão.“No caso de haver uma disputa [pela liderança], isto garantirá que o novo líder pode assumir o cargo antes do regresso do Parlamento, em Setembro. Irei manter-me no cargo de primeiro-ministro até que a disputa esteja concluída e farei tudo o que estiver ao meu alcance para garantir uma transição de poder ordenada”, afiançou.Com esta tomada de posição, anunciada depois de dois dias de contactos intensos com os seus ministros, o grupo parlamentar e a família mais próxima, Starmer volta atrás na postura e no discurso que vinha fazendo nas últimas semanas, alertando para o “caos” que uma corrida ao seu cargo iria causar, mas prometendo disputá-la contra quem o quisesse derrubar.Para além de Andy Burnham, o favorito dos militantes, segundo as sondagens, Wes Streeting, ex-ministro da Saúde, e Al Carns, ex-secretário de Estado das Forças Armadas, já mostraram interesse em concorrer à liderança do Partido Trabalhista e, por força da vitória eleitoral de 2024, no Governo do Reino Unido.Para poderem concorrer, precisam do apoio de pelo menos 20% da bancada parlamentar trabalhista, ou seja, 81 deputados. Concluída a fase de nomeações, a votação será aberta a militantes e sindicatos afiliados do Labour.No final do discurso, visivelmente emocionado, Starmer disse que vai agora “ser o melhor marido que puder” para a sua “fantástica mulher Vic”, que “tem sido um pilar” nos “bons e maus momentos” e “o melhor pai que puder” para os seus filhos, o seu “orgulho e alegria”.Com esta saída antecipada, o Reino Unido prepara-se para ter o seu sétimo primeiro-ministro em oito anos. Antes de Starmer, o país foi governado pelos conservadores David Cameron, Theresa May, Boris Johnson, Liz Truss e Rishi Sunak.Keir Starmer sai de cena depois de o seu Governo ter tido dificuldades em fazer a crescer a economia e em travar a subida do custo de vida no Reino Unido. Uma série de escândalos internos, como a nomeação de Peter Mandelson para o cargo de embaixador, assim como a posição do executivo sobre a guerra de Israel em Gaza ou as políticas restritivas da imigração, fizeram com que o Partido Trabalhista tenha caído a pique nas sondagens, com críticas da esquerda e da direita.O Reform UK, partido de direita radical e populista, venceu as eleições autárquicas de 2025 e 2026, encabeça as intenções de voto há mais de um ano. Nigel Farage, o seu líder, já veio pedir a antecipação das eleições legislativas.
Starmer “ouviu” o Partido Trabalhista e apresentou a demissão do cargo de primeiro-ministro
Líder trabalhista renuncia ao cargo menos de dois anos depois da vitória nas legislativas e abre corrida à sua sucessão. Reino Unido vai ter o sétimo primeiro-ministro em oito anos










