Setor produtivo não aproveita mão de obra qualificada localmente, diz especialista O Pará vive um descompasso econômico. Embora seja um dos principais motores da balança comercial brasileira, impulsionado pela extração mineral e pela expansão das fronteiras agropecuárias, permanece estagnado em termos de desenvolvimento institucional e operacional. De acordo com o Ranking de Competitividade dos Estados, elaborado pelo Centro de Liderança Pública (CLP), ocupa a 25ª posição no levantamento nacional, figurando à frente apenas do Amapá e do Acre. A posição alerta sobre a capacidade do Estado de reter valor, atrair investimentos de longo prazo e converter seus ativos naturais em eficiência econômica. O “custo Pará” é composto por uma soma de burocracia jurídica, assimetrias no fomento financeiro, entraves logísticos e índices negativos de segurança pública. O grande desafio estrutural reside em deixar de ser um mero exportador de commodities para se tornar um polo produtor de valor agregado. Segundo Aline Casimiro, gerente de inovação e propriedade intelectual da Fundação Guamá, responsável pela gestão do Parque de Ciência e Tecnologia do Pará (PCT Guamá), a baixa competitividade não é resultado de escassez intelectual, mas da ausência de articulação macroeconômica capaz de conectar as esferas acadêmica e produtiva. O Estado conta com instituições de ensino e pesquisa respeitadas, como as universidades federais do Pará (UFPA) e Rural da Amazônia (Ufra), que formam anualmente mestres e doutores. Contudo, o mercado local demonstra incapacidade crônica de absorver essa mão de obra. “Temos um altíssimo potencial de capital intelectual dentro das universidades, mas que pouco se converte em desenvolvimento local”, comenta Casimiro, para quem a ausência de uma cultura corporativa voltada à modernização tecnológica faz com que as grandes corporações instaladas no Estado prefiram importar soluções do Sul-Sudeste ou do exterior a investir na pesquisa local. “O resultado direto é a migração desses profissionais qualificados para outras regiões”, afirma. Como agravante, políticas públicas de ciência e tecnologia sofreram retrocessos orçamentários. Historicamente, o setor recebia aportes expressivos de fundos de contrapartida da exploração mineral. Porém, alterações regulatórias permitiram que essas obrigações fiscais fossem convertidas em contrapartidas não financeiras, como obras físicas e reformas. No campo do financiamento, as startups enfrentam um isolamento severo. É o caso da S&L Engenharia, que desenvolveu uma estação de recarga inteligente para veículos elétricos integrada a painéis solares. Apesar da viabilidade mercadológica, a escala industrial esbarra em critérios de fomento federais que ignoram as particularidades regionais. “Os grandes órgãos de fomento lançam editais voltados para a Amazônia, mas utilizam réguas e exigências desenhadas para o ecossistema do Sudeste”, diz Sandro Leite, sócio-diretor da empresa. Infraestrutura física e segurança pública também são obstáculos para a atratividade de capital. Felipe Franzina, CEO da Amazônia Bio, empresa com fábrica no Amapá que processa frutas nativas para a exportação de bioativos e suplementos alimentares para o mercado internacional, comenta que a agenda de segurança pública se tornou um fator de risco prioritário na avaliação de novos investidores. “A percepção de segurança pesa muito para o empresariado e afeta de forma direta a tomada de decisão sobre novos investimentos no Estado. É um pilar que precisa evoluir urgentemente para podermos competir com outros polos”, adverte. Procurado, o governo do Pará não respondeu.
Burocracia, insegurança e logística elevam ‘custo Pará’
Setor produtivo não aproveita mão de obra qualificada localmente, diz especialista









