Balança comercial bilionária impulsionada por minério e soja não gera bem- estar para população local, dizem especialistas Comunidade da Vila da Barca, erguida sobre palafitas na baía do rio Guajará, em Belém; IDH do Pará é o 23º do país — Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil O Pará do passado ainda representa uma dificuldade para o Pará do futuro. Embora o Estado tenha enorme potencial a partir da bioeconomia, os baixos índices sociais são um obstáculo para a transição a um novo modelo econômico sustentável que exige investimentos e capacidade de inovação. A realidade ainda é pouco atrativa para empresas e até mesmo para manter os talentos locais. O Estado é o segundo maior do Brasil em área territorial e o nono mais populoso, com 8,6 milhões de habitantes espalhadas por 144 municípios. Além disso, é o quinto maior exportador e detém a terceira melhor balança comercial do país - terminou 2025 com superávit de US$ 21,5 bilhões, puxado pela mineração e pela agropecuária, atrás apenas de Mato Grosso e Minas Gerais. Mas em termos de PIB, tem a 12 economia do Brasil e figura nas últimas colocações em uma variedade de índices sociais. No Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), é apenas o 231° entre as 27 unidades da federação. Os trabalhadores paraenses têm uma das piores remunerações médias do país: R$ 2.760,56 por mês, 21 colocação. Não por acaso, é o sétimo Estado com inscritos no Bolsa Família, com 1,3 milhão de beneficiários. É quando se olha para dados de saneamento básico, saúde e desempenho escolar que o Pará mais preocupa quem deseja vê-lo destravar seu potencial. Só 51,18% dos domicílios paraenses recebem água tratada e 21,68% estão conectados à rede de esgoto. O Estado aparece no 251° lugar em saneamento. Para piorar, é o 261° na taxa de médicos por 10 mil habitantes. A falta de saneamento e de médicos, especialmente no interior, mantém uma espiral negativa. “Comunidades doentes produzem menos”, diz o professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) e diretor da Unidade Embrapii em Desenvolvimento Sustentável da Fruticultura na Amazônia (UFPA - Bioeconomia), Hervé Rogez. Ele observa que a topografia paraense a extensa cobertura da Amazônia dificultam uma expansão mais acelerada das redes de água e esgoto, mas pondera que isso já não é desculpa para a gestão pública. “Já foram destinados muitos milhões para isso no Pará, mas esse dinheiro, de certa forma, acabou sendo jogado nos rios em forma de esgoto. Esse é um problema que precisa ser resolvido com a devida vontade porque não ter água tratada prejudica até mesmo a produção na bioeconomia”, afirma o professor. Para ele, o Pará vive o paradoxo de ter uma balança comercial bilionária impulsionada por minério e soja, mas que não gera bem-estar social. Rogez vê a bioeconomia como a principal alternativa viável para reverter esse problema, mas lamenta que será difícil avançar sem investimentos massivos em saúde, saneamento, educação e internet. O desenvolvimento da bioeconomia, acrescenta, requer que os jovens queiram ficar em seus municípios para que o modelo baseado na natureza se sustente no longo prazo. “Como é que vamos convencer os jovens a manter uma cadeia de valor agregado do açaí, por exemplo, sem que eles tenham nem mesmo internet de qualidade?”, questiona. “É algo que eles consideram importante para suas vidas e é fundamental também para a educação deles a partir de um certo momento”. A educação básica é outro gargalo. Na avaliação da primeira até a quinta série, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) é 4,8 pontos, o que põe o Pará na 25 colocação nacional. Nas séries finais (sexto ao nono ano), a rede pública estadual atinge apenas 4,2 pontos, na 21 colocação. Superávit contribui para o equilíbrio macroeconômico do país, mas deixa pouco para o Estado, diz Maria Amélia Enriquez Para a economista e doutora em desenvolvimento sustentável Maria Amélia Enriquez, os índices sociais mostram que o Pará precisa alterar aceleradamente seu modelo econômico extrativo que não tem permitido reconverter a renda gerada pelo agronegócio e pela mineração em receitas públicas que possam se traduzir em serviços públicos de qualidade. “Todo país ou região que deu a virada no seu processo de desenvolvimento contou com a participação de um forte capital humano. Porém esse capital precisa ser, de fato, incluído no processo produtivo”, diz ela. Enriquez destaca que o Pará tem uma das maiores universidade do Brasil (a UFPA), onde forma recursos humanos em todas as áreas desde a graduação até o pós-doutorado, mas não promove uma conexão próxima com o setor produtivo. “Vemos que os políticos dão ênfase excessiva às coisas que aparecem e relegam que o essencial é aquilo não se vê, como saneamento e educação”, diz ela, que também é professora titular na UFPA. Na análise de Enriquez, a transformação do Pará precisa passar inevitavelmente por algumas etapas, começando pela mudança institucional para estimular uma produção de maior valor agregado. “Os abundantes superávits [atuais] que o Pará gera reforçam o colchão amortecedor cambial e contribuem enormemente para o equilíbrio macroeconômico do país, mas deixam pouco para a população do Estado”, afirma. Questionado sobre quais planos estão em andamento ou projetados para promover o desenvolvimento econômico e social que melhoraria os indicadores locais, o governo do Pará não respondeu.