Políticas públicas e novos investimentos buscam impulsionar, até 2050, a produção da sociobiodiversidade e triplicar a participação do setor no PIB do Pará Sob a liderança de açaí, castanha e cacau, o Pará está em posição privilegiada na corrida da bioeconomia como eixo de desenvolvimento, com a promessa de ganhos sociais e mitigação climática. A transição ocorre em um cenário de novas políticas públicas, demanda por práticas sustentáveis e acenos de financiamento. Há estoques naturais de bioprodutos e grande extensão de áreas já desmatadas e degradadas aptas à restauração em modelos emergentes de negócios, mas o mapa do caminho enfrenta barreiras em um momento-chave para a agenda avançar e mudar a lógica econômica da derrubada da mata. Além da estruturação da base produtiva, busca-se capital público e privado, atração de mercados e aumento de escala compatível com o conhecimento tradicional e a valorização da floresta. Após a visibilidade da COP30 em Belém, no ano passado, o Estado mobiliza cerca de R$ 1 bilhão em investimentos na economia da sociobiodiversidade, sendo R$ 600 milhões em infraestrutura. A estimativa é de um retorno de R$ 1,3 bilhão, em três anos - valor que aumenta no caso de aportes em tecnologias, industrialização e comercialização, conforme projeções do WRI Brasil. “Não vemos mais o setor como um puxadinho ou nicho, mas um novo paradigma econômico”, diz Camille Bemerguy, secretária-adjunta de Bioeconomia do Pará. Segundo ela, a estratégia é criar ambiente propício para negócios capazes de promover a escala da bioeconomia, que hoje representa 3,5% do PIB estadual, dominado pelo agronegócio e pela mineração. A meta é alcançar o patamar de 11% até 2050, a partir de inovações em produtos de maior valor agregado e da economia da restauração florestal, com cerca de US$ 1 bilhão investidos neste período. O movimento é resultado do Plano Estadual de Bioeconomia do Pará, que em três anos beneficiou 500 mil pessoas e 5 mil negócios de vários perfis, segundo a plataforma que monitora as ações - 50% já implementadas. “Falta entendimento do mercado para uma maior aproximação de grandes empresas”, reconhece Bemerguy, ao revelar que o governo estadual estuda incentivos fiscais para atrair indústrias ao sonhado “Vale Bioeconômico” paraense. Falta entendimento do mercado para maior aproximação de empresas” O centro das atenções está no Parque de Bioeconomia e Inovação da Amazônia, instalado ao custo de R$ 300 milhões em armazéns portuários revitalizados à margem da baía do Guamá, em Belém. O objetivo de conectar ciência, comunidades, empreendedores e mercado em torno da economia sustentável da floresta começa a sair do papel. A estrutura de 6 mil m2 reúne espaços de negócios e laboratório-fábrica, inédito no país, com maquinário de ponta para o desenvolvimento piloto de bioprodutos, testes de qualidade e procedimentos prévios à escala industrial. Após lotes experimentais visando a calibragem dos equipamentos, o plano é até dezembro iniciar os contratos para alimentos, bebidas e cosméticos, com participação de empresas-âncora de grande porte. Companhias globais têm visitado as instalações do parque, como a Nestlé , que mira oportunidades com insumos amazônicos além do cacau dos chocolates. Essa dinâmica de aproximação com a bioeconomia se evidencia pela expansão de startups, que já são 317 no Pará, 160% a mais do que em 2020, conforme a Fundação Certi. A tendência mostra a irradiação de negócios para fora da capital, mas o movimento esbarra em fatores estruturantes em regiões isoladas, como acesso a água e internet. Dos 74 mil estabelecimentos amazônicos da bioeconomia sem acesso público à energia elétrica, 27% estão em território paraense. “Sem sistemas de resfriamento, grande parte da produção de itens como o açaí precisa ser consumida localmente ou é perdida”, afirma Vinícius Silva, líder de projetos do Instituto Energia e Meio Ambiente (Iema). São problemas com reflexos claros na vida da população local. Apesar de representar a maior economia da região Norte, o Pará figura entre os Estados de piores indicadores sociais. Acesso a crédito e assistência técnica, logística, inovações em finanças adaptadas à floresta, ciência mais próxima da demanda industrial e abertura de mercados completam a lista de desafios. “A transição econômica não se faz de uma hora para outra, haja vista o que ocorre na agenda dos combustíveis fósseis”, compara Joanna Martins, secretária executiva da rede Uma Concertação pela Amazônia e fundadora da Manioca. A empresa de Belém inovou com o molho de tucupi preto - “o shoyu da Amazônia” - e atraiu parceria da multinacional japonesa Ajinomoto para o produto chegar às redes de supermercados do país. Futuro da Amazônia será decidido pelo que ocorrer no Pará” — Salo Coslovsky Na visão da empresária, a economia de escala na floresta é possível, mas diferente: “A lógica não está em poucos que produzem muito, mas em vários pequenos negócios somados para fornecimento de grandes volumes”. Para Fernando Penedo, diretor de operações e projetos no Instituto Amazônia+21, ligado à Confederação Nacional da Indústria (CNI), a agenda demanda investimento industrial. “Para não perder essa janela de oportunidade, precisamos de uma discussão séria sobre escala.” Danilo Fernandes, pesquisador da Universidade Federal do Pará (UFPA) à frente da construção de indicadores para monitorar a bioeconomia, ressalva que o setor já alcança R$ 13 bilhões no PIB no Estado, conforme dados preliminares de estudo a ser divulgado no fim do ano. “A atividade já tem escala e relevância no mercado de consumo regional, em especial na segurança alimentar, e a industrialização não pode ignorar a realidade dos territórios”, afirma. “Se a bioeconomia já existe nessa dimensão, imagine se adicionarmos tecnologia e abertura de mercados”, diz Juliana Simões, líder de sociobioeconomia da TNC Brasil. A ONG projeta um PIB de R$ 170 bilhões para o setor no Pará em 20 anos, com receita em serviços ambientais como créditos de carbono por conservação e restauração de florestas. A meta estadual de recuperar metade de seus 11 milhões de hectares de áreas degradadas pode gerar renda superior à da pecuária, segundo a TNC. “A economia da regeneração é o futuro da Amazônia, que será decidido pelo que ocorrer no Pará”, aponta Salo Coslovsky, pesquisador da iniciativa Amazônia 2030. Essa demanda mobiliza recursos para expansão de agroflorestas, como na Belterra, empresa paraense que recebeu investimentos de R$ 200 milhões e tem outros R$ 500 milhões em captação, com foco em cacau e carbono, e parceiros como a Amazon. A previsão é cobrir 10 mil hectares de pequenos e médios produtores rurais.