Setor Aposta na diversificação de possibilidades para consolidar Estado como destino Comunidade de Belém com esgoto a céu aberto; só 10%da população do Pará tem coleta dos resíduos, dizTrataBrasil — Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil Um passivo histórico nos sistemas de abastecimento de água e coleta e tratamento de esgoto, baixa capacidade operacional, longos períodos de subinvestimento e a dimensão territorial de um Estado com índices precários em saneamento tornam o Pará, nas palavras do vice-presidente da Aegea, Renato Medicis, “um dos maiores desafios de infraestrutura do país”. A companhia venceu em 2025, por meio da concessionária Águas do Pará, o leilão de saneamento para atender 126 dos 144 municípios paraenses, incluindo cidades da região metropolitana de Belém, do arquipélago do Marajó, das regiões nordeste, sudeste e sudoeste do Estado e do Baixo Amazonas, o que abrange mais de 5,5 milhões de pessoas. As demais cidades já tinham contratos próprios vigentes. “A concessão envolve municípios espalhados por uma área extensa da Amazônia, com localidades remotas, acesso fluvial e baixa integração logística. Isso impacta transporte de equipamentos, mobilização de equipes e execução de obras”, explica o executivo, elencando também a complexidade da região metropolitana de Belém, com áreas densamente ocupadas, palafitas e infraestrutura precária. Segundo ele, o Pará vive um contraste estrutural: está na maior bacia de água doce do mundo, mas tem irregularidade em abastecimento, perdas elevadas e baixa cobertura de coleta e tratamento de esgoto. “Isso exige investimentos simultâneos em produção, distribuição, modernização operacional e expansão de redes", diz. No ranking do saneamento do Instituto Trata Brasil dos cem municípios com a maior cobertura do país, a cidade paraense melhor posicionada é Ananindeua, na 91ª posição, seguida por Belém (94ª), Parauapebas (96ª) e Santarém (100ª). Segundo Luana Pretto, presidente-executiva da ONG, historicamente o Pará investiu em média só R$ 17 por habitante em saneamento por ano, contra os R$ 137 da média nacional e os R$ 223 necessários para a universalização. Essa cifra deve mudar com os investimentos previstos no contrato da Agea, que somam R$ 18,7 bilhões em 40 anos. Para 2026, a empresa deve aplicar R$ 861 milhões em água e esgoto (R$ 156/habitante). Medicis ressalta que o foco inicial tem sido a modernização de estruturas precárias para reduzir perdas de água - que chegam a 70% em Belém - e em garantir a regularidade do abastecimento. O executivo diz que a operação em Belém, Ananindeua e Marituba iniciou em setembro de 2025, de forma antecipada e associada a um pacote de investimentos de R$ 220 milhões em parceria com o governo do Estado e com a com a Companhia de Saneamento do Pará (Cosanpa). “Esse aporte resultou na implantação dos sistemas de água tratada e coleta de esgoto na Vila da Barca, uma das maiores comunidades sobre palafitas da América Latina, beneficiando cerca de 5 mil moradores”, afirma. Renato Medicis: “[Pará] exige investimentos simultâneos em produção, distribuição e modernização” — Foto: Divulgação A meta da concessionária é atingir 99% de cobertura de água até 2033 e 90% de coleta de esgoto até 2039 nas áreas atendidas. Segundo a Trata Brasil, só 51,6% da população paraense tem acesso à água tratada, e 10%, a coleta de esgoto. Pretto destaca que a carência de serviços reflete diretamente na saúde pública. A ONG contabilizou mais de 19 mil internações e 123 mortes por doenças ligadas à falta de saneamento no Pará apenas no ano passado. A entidade calcula ainda que cada R$ 1 investido em saneamento gera um retorno de R$ 3,20 para a economia - por exemplo, com menos faltas de trabalhadores por doenças ligadas ao contato com esgoto e falta de água potável. “Em termos de custo com saúde, seriam economizados mais de R$ 9 bilhões [com a universalização do serviço]. São menos pessoas doentes; automaticamente, elas conseguem ter uma maior produtividade", elenca Pretto, apontando que os valores englobam tanto a redução de custos com saúde quanto o aumento da produtividade do trabalho e da escolaridade. Relatório do Tribunal de Contas dos Municípios do Pará apresentado em 2025 indica o tamanho do desafio que há pela frente. Dos 144 municípios do Estado, 78 não possuíam uma Política Municipal de Saneamento Básico e 93 sequer haviam elaborado um plano para o setor. A situação é igualmente severa quanto ao manejo de resíduos sólidos: mais de 85% das prefeituras ainda usavam lixões improvisados, apesar do prazo legal para o encerramento dessas atividades ter vencido em 2024. Apenas seis municípios contavam com aterros sanitários regularizados.
Desafio paraense em saneamento é um dos maiores do país
Setor Aposta na diversificação de possibilidades para consolidar Estado como destino
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