Seis anos após novo marco legal do setor, presença das empresas disparou, mas interesse do mercado por novos leilões já esfria Christianne Dias: “O setor precisa de captação grande de recursos, então sofre muito com a taxa de juros” — Foto: Divulgação Seis anos após a publicação da nova lei do saneamento, as empresas privadas do setor chegaram a 2.720 cidades brasileiras, praticamente a metade do total de municípios do país, segundo levantamento da Abcon (Associação Brasileira das Empresas de Saneamento), obtido em primeira mão pelo Valor. O dado contabiliza tanto concessões quanto Parcerias Público-Privadas (PPPs), em que as operadoras atuam junto às estatais. Só em 2026, o mercado privado teve um salto de 37% em relação ao ano passado, em grande parte puxado pela privatização da Copasa (Companhia de Saneamento de Minas Gerais), realizada em junho. A ex-estatal mineira está presente em 637 cidades. Desde 2020, ano no qual o novo marco legal do setor foi sancionado, o número de municípios com operação privada se multiplicou em seis vezes, apontam os dados da entidade. Naquele ano, a participação das empresas era de 7%, contra 49% hoje. Apesar do avanço das empresas, os grandes leilões de água e esgoto realizados recentemente já deram sinais de uma desaceleração do interesse privado. Neste ano, tanto a Saneago (estatal de Goiás) quanto a Cagece (do Ceará) tiveram que suspender licitações de Parcerias Público-Privadas (PPPs) por falta de propostas de investidores. A estatal cearense chegou a conseguir leiloar um dos cinco lotes oferecidos - este recebeu apenas uma oferta, de um consórcio liderado pela Terracom. O mesmo se deu com a PPP da Cagepa, da Paraíba, também leiloada neste ano. A iniciativa recebeu uma única proposta, da espanhola Acciona. A própria privatização da Copasa, feita via oferta de ações na bolsa, atraiu apenas um grupo interessado em se tornar acionista de referência da empresa, a Equatorial. No processo, segundo fontes, um consórcio de acionistas da Aegea chegou a apresentar oferta, que ficou abaixo do preço mínimo. Quando o processo foi reaberto com a divulgação do valor do piso, o grupo optou por não fazer nova proposta. O cenário contrasta com o dos leilões feitos nos últimos anos, em que investidores entraram em concorrências acirradas na B3 e ofereceram bilhões em outorga para conquistar contratos. O menor interesse do setor privado é atribuído a dois fatores, na visão de Christianne Dias, diretora-executiva Abcon. O primeiro deles é o fato de que os Estados recentemente têm estruturado PPPs (em que o pagamento é feito pela estatal), um modelo com menos apelo que o das concessões plenas (em que o usuário paga diretamente à empresa). O segundo motivo é a alavancagem financeira elevada das companhias de água e esgoto, após uma sequência de leilões nos últimos anos, em que bilhões de investimentos foram contratados. “A taxa de juros está muito alta. Como no setor de saneamento os contratos têm investimento muito concentrado nos primeiros anos, a gente precisa de captação de recursos grande, e o retorno vem apenas do meio para o final do contrato. Então, o setor sofre muito impacto da taxa de juros”, diz ela. Na avaliação de especialistas, o principal motivo é que as concessões oferecidas nos últimos meses estão em regiões menos rentáveis e trazem modelagens com premissas otimistas demais. “Esse desaquecimento é reflexo de projetos mais difíceis, em territórios mais desafiadores, seja do ponto de vista logístico, pela extensão grande, seja por serem municípios menores, por terem populações com menor capacidade de contribuição tarifária. Isso gera mais cautela”, afirma Frederico Ribeiro, sócio da consultoria Radar PPP. “Os leilões mais esperados pelos grandes investidores já aconteceram: as privatizações da Sabesp [em São Paulo], da Corsan [no Rio Grande do Sul] e da Copasa, as concessões da Cedae [no Rio de Janeiro], as PPPs da Sanepar [no Paraná]. Há ainda leilões por vir. Mas a primeira leva que mais despertou interesse do setor privado já foi”, diz Gustavo Magalhães, sócio do Madrona Advogados. Diante de projetos mais complexos, os analistas destacam a necessidade de os governos reduzirem os riscos dos contratos na estruturação dos editais. “Algumas modelagens não foram feitas com tanto zelo. Às vezes, para atender a janelas políticas, as iniciativas são publicadas com alguns pontos de atenção”, diz ele. As companhias estão mais seletivas nos leilões, mas continuam estudando novos projetos e mantêm o interesse em expansão, afirma Luiz Gronau, sócio-diretor da A&M Infra. Entre os grandes contratos que ainda são esperados pelo mercado estão as concessões em São Paulo, em estudo pelo governo paulista, projetos no Rio Grande do Sul e iniciativas da carteira do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), como as de Rondônia e do Rio Grande do Norte. Além disso, há um mercado de projetos de menor porte que ainda gera muitas licitações e atrai forte interesse, embora com investimentos mais pontuais e de atores menos experientes em concessões, destaca Ribeiro. “De abril até hoje, temos dez licitações abertas dentro do setor, oito delas municipais, em cidades como Lavras (MG), Erechim (RS), Timbó (SC), Tangará (MT). São municípios relevantes, de porte não desprezível. Tem um mercado mais pulverizado, mas importante. Esse tipo de projeto vai continuar de forma intensa neste ano e até ano que vem, até a eleição municipal”, afirma. Para além de viabilizar novos leilões, Dias, da Abcon, afirma que o principal desafio agora será a execução dos investimentos contratados e a forma como as agências reguladoras vão se comportar diante da necessidade de reequilíbrios econômico-financeiros das novas concessões. “A regulação melhorou, mas ainda temos um longo caminho pela frente. O operador privado, quando pega concessão, tem encontrado um desencontro de informações, uma divergência de números. Isso gera desequilíbrios, que precisam ser analisados com cautela por uma agência reguladora forte, com menos ingerência política”, diz ela. Gronau também destaca a regulação como tema que será importante neste novo momento do setor. “Estamos começando os ciclos de revisões ordinárias dos contratos que se iniciaram após o novo marco legal. Começamos a ver a discussão, esse embate entre o que foi estabelecido no modelo do contrato e a realidade, as dificuldades. O resultado dessas revisões vai ser importante para ver quão maduro o setor está em termos de regulação”, diz.
Saneamento privado chega à metade das cidades do país
Seis anos após novo marco legal do setor, presença das empresas disparou, mas interesse do mercado por novos leilões já esfria







