Sem base parlamentar sólida, Abelardo de la Espriella enfrentará dilema semelhante ao de Gustavo Petro entre negociar com o centro ou apostar na radicalização 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella — Foto: Juan BARRETO / AFP/21/06/2026 RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 22/06/2026 - 20:38 Desafios de Governabilidade para Abelardo de la Espriella na Colômbia A vitória apertada de Abelardo de la Espriella como presidente da Colômbia impõe um desafio de governabilidade similar ao enfrentado por Gustavo Petro. Com uma base parlamentar frágil, Espriella, de extrema direita, deve decidir entre negociar com o centro ou radicalizar. A forte estrutura institucional colombiana pode dificultar medidas autoritárias, enquanto a vitória reflete uma tendência regional de derrota dos governantes em exercício. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A vitória apertada de Abelardo de la Espriella na eleição presidencial colombiana, por menos de 1 ponto percentual, deixa o novo governo diante de um cenário de baixa margem política para implementar mudanças profundas. Além disso, impõe ao novo presidente colombiano, de extrema direita, um desafio semelhante ao enfrentado pelo atual presidente Gustavo Petro, de esquerda, ao longo do mandato: encontrar uma fórmula para construir maioria política em um Congresso fragmentado. Para o cientista político Pedro Abramovay, vice-presidente de Programas na Open Society Foundations, a experiência recente do governo Petro oferece um indicativo dos caminhos e dos riscos para o presidente eleito. — Petro conseguiu aprovar reformas importantes no primeiro ano de governo, como a tributária, quando ainda contava com uma coalizão mais ampla. Mas, à medida que radicalizou seu discurso, foi perdendo aliados. O mesmo dilema agora se coloca para Espriella — explica ao GLOBO. Espriella iniciará o mandato sem uma base parlamentar consolidada e dependerá de negociações para aprovar qualquer agenda. Com cinco representantes de seu partido, Defensores da Pátria, no Congresso (de um total de 284) o discurso de outsider, que rejeita a política e o establishment, será colocado à prova. — Ele pode buscar uma postura mais moderada para atrair a direita tradicional e o centro, ou seja, fazer política tradicional, distribuindo espaços no governo e incorporando esses atores. Ou pode radicalizar e tentar construir mobilizações populares para sustentar sua agenda, eventualmente com apoio dos EUA — diz Abramovay, ressaltando, porém, que ambas as estratégias têm custos políticos. — Caso escolha a moderação, corre o risco de perder parte do apoio do eleitorado que o levou ao poder. Petro viveu esse dilema. No fim, sua radicalização acabou aumentando a popularidade entre seus apoiadores, mas reformas importantes não foram aprovadas. Com a segunda maior bancada do Congresso, o Centro Democrático, principal partido da direita tradicional colombiana, confirmou na segunda-feira seu apoio ao novo governo. Mas o Pacto Histórico, partido de Petro e Cepeda, ainda detém a maioria na Casa, embora não absoluta. Por isso, o novo presidente terá que negociar com outras legendas para formar maioria. A vitória apertada foi obtida graças ao apoio decisivo de colombianos que vivem fora do país, que deram 63,8% dos votos a Espriella, uma vantagem de 177.809 votos sobre o adversário. Quase dois terços da diferença final entre os candidatos vieram desse segmento do eleitorado. Protestos nas ruas Para Carlos Malamud, analista de América Latina do Real Instituto Elcano, na Espanha, o resultado extremamente apertado enfraquece a legitimidade política do novo presidente para promover reformas estruturais. A expectativa era de uma vitória mais confortável, segundo as pesquisas. Os sinais sobre qual estratégia será adotada devem aparecer nas próximas semanas. — O resultado justo não ajuda muito a impulsionar as reformas mais radicais prometidas durante a campanha. Havia uma inclinação para um cenário em que ele tentasse aprovar mudanças a qualquer custo, seguindo o exemplo da “motosserra” de Javier Milei [presidente argentino] ou das prisões em massa de Nayib Bukele [presidente de El Salvador]. Mas no discurso da vitória, Espriella disse querer ser o presidente de todos os colombianos. — afirma ao GLOBO. — O tempo vai dizer. Os primeiros indícios aparecerão quando começar a definir os nomes de seu Gabinete e de sua equipe. A partir daí será possível ter uma ideia da direção que pretende seguir. O analista político lembra ainda que, diferentemente de outros países da região, onde medidas autoritárias foram adotadas sem respaldo do Congresso, a forte estrutura institucional da Colômbia será um empecilho para um viés pouco democrático. — O sistema político colombiano é muito forte e ele terá de lidar com isso. As instituições são muito mais consolidadas do que no Equador de [Daniel] Noboa, por exemplo, que adotou sucessivos estados de exceção. Petro tentou convocar uma Assembleia Constituinte e teve que dar um passo atrás. Não acredito que esse seja um caminho que o novo governo consiga percorrer. Embora a campanha tenha sido marcada por forte polarização, Malamud avalia que o resultado, por si só, não deve provocar uma crise institucional nem uma onda imediata de contestação. Antes da votação, Petro havia tratado como natural a possibilidade de manifestações caso seu candidato fosse derrotado. Cepeda, por sua vez, pediu calma a apoiadores, depois que vários deles foram às ruas para protestar em Bogotá e Cali, onde queimaram bandeiras dos EUA e entraram em confronto com a polícia de choque. — Meu apelo é para que mantenhamos a tranquilidade, porque essa é a nossa postura — disse o governista, reiterando que só reconhecerá os resultados após a apuração oficial definitiva. — Mantenhamos neste momento um comportamento exemplar. Reflexo na América Latina Embora a vitória de Espriella fortaleça a direita regional, Abramovay explica que ela reforça, acima de tudo, uma tendência que vem se consolidando na América Latina: a derrota dos grupos que estão no poder, independentemente da orientação ideológica. — Nas últimas 24 eleições presidenciais da região, 20 foram vencidas pela oposição. É uma tendência muito clara, independentemente da coloração partidária. Ainda assim, ele ressalta que a nova configuração política enfraquece os projetos de integração latino-americana incentivados por Lula. — A ideia de uma cooperação regional capaz de atuar como contraponto aos EUA perde muita força. Agora, precisamos entender se Espriella utilizará essa oposição para radicalizar a relação com Lula, como faz Milei, ou se buscará cooperação nas áreas em que existam interesses comuns, como os atuais presidentes do Chile [José Antonio Kast] e do Paraguai [Santiago Peña], ambos de direita. São dois modelos bastante diferentes.