Eleição na Colômbia mostra força do discurso outsider e antipolítica Crédito: Produção: Beatriz de Souza/Imagem e som: Felipe Oliveira (Felps)Gerando resumoO advogado Abelardo de la Espriella, um milionário de 47 anos, com discurso contra as guerrilhas e de rejeição ao presidente Gustavo Petro, foi eleito novo presidente da Colômbia. Numa votação polarizada e com margem de votos apertada, Espriella venceu no segundo turno o candidato de Petro, Iván Cepeda, congressista e filósofo aliado do governo. A vitória de Espriella amplia o poder da direita na América do Sul e o grupo de países aliados do presidente dos Estados Unidos Donald Trump no continente.Apoiadores de Abelardo de la Espriella celebram resultado da eleição Foto: Joaquin Sarmiento AFPPUBLICIDADECepeda fez discurso dizendo que vai reconhecer o resultado quando a contagem dos votos for atestada pela Justiça e anúnciou que vai pedir a impugnação de 33 mil mesas eleitorais em toda o país. Segundo as regras colombianas, os votos apurados neste domingo na pré-contagem ainda precisam ser chancelados pela avaliação de juízes.Já o presidente da Colômbia usou seu perfil nas redes sociais para dizer que é preciso esperar o resultado oficial para proclamar o vencedor na disputa. Ele alertou que o resultado deve ser validado pelo Poder Judiciário. Publicidade“Não se pode proclamar nenhum presidente. É a avaliação cuidadosa que determina quem é o presidente. Obedeço aos juízes”, escreveu Petro, no X. “Tranquilidade entre a cidadania, por favor. A realidade nos dá um país dividido ao meio, e interferência estrangeira nos tirando a liberdade”.O colombiano defendeu um acordo nacional para “manter a Pátria e a paz” nos próximos anos. Em outras publicações, o presidente levantou mais questionamentos acerca do sistema eleitoral. Ao publicar um vídeo de “testemunhas digitais”, Petro acusou servidores da Junta Eleitoral de enviar formulários sem assinaturas de jurados em algumas urnas, defendendo que essas seções deveriam ser “imediatamente impugnadas”, mas sem apresentar mais informações ou comprovar a legitimidade das supostas provas.Ao contrário de Petro, Cepeda reiterou confiança no sistema eleitoral ao depositar seu voto mais cedo, afirmando que reconhecerá os resultados e pedindo pelo “triunfo da democracia”.De la Espriella ficou conhecido por ter defendido casos controversos envolvendo paramilitares e pessoas da elite econômica. Duplo cidadão americano e colombiano, ele registrou sua candidatura coletando assinaturas de cidadãos, recusando o apoio de partidos políticos e de grandes grupos empresariais, o que contribuiu para seu apelo popular.PublicidadeSegundo o cientista político da UERJ Andrés Londoño Niño, o candidato aprendeu com outras campanhas de direita bem-sucedidas na região. “Ele se inspirou em políticos como Bolsonaro (Brasil), Bukele (El Salvador), Milei (Argentina), Kast (Chile)”, afirma.A votação do segundo turno presidencial na Colômbia terminou neste domingo, 21, dando início à contagem de votos, em um país profundamente dividido.Apurados 99,45% dos votos, Espriella obteve 49,67% dos votos e Cepeda 48,69%. Esta eleição é fundamental para determinar o destino das políticas de paz do primeiro governo de esquerda na história do país, as quais alcançaram poucos avanços em meio a um pico de violência e a relações tensas com Washington.PublicidadeColombianos que moram na Espanha votam para presidente de seu país Foto: Pierre-Philippe Marcou / AFPSegundo as pesquisas, Abelardo de la Espriella estava em vantagem. “Aconteça o que acontecer, haverá descontentamento porque o país está polarizado, está dividido”, disse à AFP a aposentada Leonor Barreda, de 71 anos, em um bairro popular de Bogotá.Mais de 41 milhões de pessoas foram convocadas a votar em uma jornada que terminou tranquila. A autoridade eleitoral espera ter os resultados em poucas horas.De la Espriella votou vestindo a camisa da seleção de futebol, cercado por centenas de apoiadores com a mesma vestimenta, que gritavam “Fora Petro!” em Barranquilla, seu reduto político.“Viemos para mudar a política para sempre; hoje é o jogo mais importante da história da Colômbia”, disse aos jornalistas o candidato, que se autodenomina “O Tigre”.PublicidadeCepeda compareceu a uma escola em um bairro popular de Bogotá cercado por seguranças com escudos à prova de balas.“Quando vencermos, vamos governar para todo o país, e não apenas para um setor”, declarou à imprensa, sob gritos de “O povo está com você!”.Violência de grupos armados marca eleiçãoUma década após o acordo de paz com as Farc, a campanha foi marcada pela violência de grupos armados, com o uso de bombas e drones explosivos, além do assassinato de um candidato presidencial.De la Espriella culpa Petro, a quem chama de “chefe da máfia”, e ameaça levá-lo à justiça dos Estados Unidos.PublicidadeO advogado afirmou à AFP que buscará o apoio de Trump e de Israel para atacar a guerrilha com bombardeios e pulverizações de plantações ilícitas no maior produtor mundial de cocaína.Com dupla nacionalidade (colombiana e americana), ele se opõe à chamada “paz total”, com a qual Petro pretendia enterrar décadas de conflito armado. Segundo analistas, as organizações criminosas aproveitaram a trégua para enriquecer e se expandir.É preciso “combater a insegurança e os grupos armados, acabar com eles de uma vez por todas porque são o câncer do país”, disse Nel Bolaño, um engenheiro de 55 anos, na cidade caribenha de Barranquilla.Filho de um político comunista assassinado por agentes estatais e paramilitares, Cepeda foi um dos artífices das políticas de paz do governo, embora em entrevista à AFP tenha se mostrado disposto a revisá-las.Publicidade“Quero defender os direitos que Petro nos deu. Todas as oportunidades de trabalho e subsídios”, disse Andrés Meza, um comerciante de 54 anos em Bogotá.“Soluções de choque”Petro tenta repetir a façanha de manter a esquerda no poder. O atual presidente conta com o apoio de outros governos de esquerda, como os de México e Brasil, enquanto a direita apoiada por Trump avança em países como Argentina, Chile, El Salvador e Equador.Atrás de uma urna de vidro à prova de balas e fazendo saudações militares, De la Espriella se tornou um fenômeno político. Ele ostenta uma faceta de cantor e exibe uma vida de luxo na Itália.“Ele se conecta com um eleitorado que já está muito cansado da insegurança e precisa de soluções de choque”, mas também encarna um modelo “aspiracional” do “empresário que construiu a própria fortuna”, afirma Luisa Lozano, especialista da Universidade de La Sabana.PublicidadeEle defende o porte de armas, a construção de megapresídios, a exploração de petróleo por fracking, o corte de 40% da máquina pública e já declarou que o “ideal” seria dolarizar a economia.Sem experiência política prévia, seus detratores o criticam por seus frequentes comentários machistas e homofóbicos, e por ter defendido paramilitares e narcotraficantes em sua atuação como advogado.Historicamente, a Colômbia tem sido o aliado mais próximo dos Estados Unidos na América do Sul, recebendo milhões de dólares em ajuda para as forças armadas e inteligência. No entanto, as relações se deterioraram.Trump já classificou Cepeda como um “marxista de esquerda radical”, enquanto este, por sua vez, afirmou que o país não será uma “colônia” americana. (Com AFP)Publicidade