A transição energética continua a fazer-se a diferentes velocidades no país. E a identificação dos factores que explicam por que razão alguns municípios avançam mais rapidamente do que outros na adopção do autoconsumo e da mobilidade eléctrica valeu a Catarina Silva o primeiro lugar no Open Data Academy Challenge Award da E-REDES, entregue a 7 de Abril. A cerimónia decorreu na Fundação Portuguesa das Comunicações, em Lisboa.O trabalho, desenvolvido no mestrado no Instituto Superior Técnico, foi distinguido com 6 mil euros e traz novos contributos para a definição de políticas públicas, ao evidenciar tanto os motores como os bloqueios da transição energética em Portugal. O ponto de partida da estudante foi a de que a Europa ainda está atrasada face aos objectivos ambientais definidos. “Especificamente para Portugal, existia pouca investigação sobre quais os determinantes para a adopção de autoconsumo e de mobilidade eléctrica. Isto acaba por ser importante porque a produção de energia e o transporte são os principais poluentes na actualidade”, refere Catarina Silva. Através dos dados disponíveis no portal Open Data da E-REDES, foi possível identificar quais os determinantes “que devemos capitalizar para definir medidas públicas” e “quais é que estão a atrasar a transição energética”.A atenção dada a um problema real do território, a identificação de soluções no âmbito da transição energética foram o foco dos cinco trabalhos finalistas desta segunda edição do prémio, que este ano revelaram novas abordagens, como uso de modelos de linguagem (LLM) ou machine learning.Depois de uma primeira selecção por uma comissão técnica entre as 10 candidaturas válidas, o júri (composto por Ana Pinto Martinho, ISCTE; Carlos Santos, RNAE; João Martins de Carvalho, E-REDES; José Cano Rodríguez, Universidade de Oviedo; Manuela Fonseca, Direção-Geral de Energia e Geologia), avaliou uma shortlist da qual distinguiu duas dissertações de mestrado que se focaram no tema das comunidades de energia. Henrique Fava Rica, da Universidade de Évora, ficou em 2º lugar (prémio de 4 mil euros) pelo desenvolvimento de um modelo de simulação para a gestão técnica e económica de comunidades energéticas na Universidade de Évora e na Cruz Vermelha local. O estudante encontrou vantagens neste modelo com taxas de autoconsumo superiores e com retornos financeiros melhores: “As comunidades energéticas fazem, de facto parte do futuro, porque faz sentido produzirmos energia de forma comunitária”, resume.Rafael Fernandes Gonçalves, da Universidade de Aveiro, foi o 3º classificado (prémio de 2 mil euros) graças a uma investigação que utilizou perfis de consumo energético agregados por código postal disponibilizados pelo portal Open Data da E-REDES. Com formação em engenharia informática, utilizou estes dados reais para validar um modelo de redução dos custos operacionais. “Estamos não só a ajudar o ambiente, mas também a ajudar os participantes destas comunidades. Por exemplo, um vizinho que produza energia em excesso, pode partilhar com os restantes habitantes e criar uma dinâmica de cooperação”, descreve, sublinhando o papel que a Inteligência Artificial pode ter neste âmbito. “Neste momento está a ser completamente disseminada em várias áreas, como o processamento de linguagem artificial. Mas ainda há algumas embrionárias, como a transição energética, a agricultura, em que ainda há um caminho”, afirma.Uma ferramenta poderosa para soluçõesA disponibilização de dados abertos é essencial, cumprindo o portal Open Data da E-REDES a vocação de serviço público para a qual foi criado. “É um agente vivo, evolutivo, que tem de dar resposta às necessidades crescentes e ao feedback dos utilizadores”, considera o administrador da E-REDES, João Martins de Carvalho. Como principal operador na distribuição de energia eléctrica em Portugal Continental das redes de alta, média e baixa tensão, a E-REDES recebe as medições, a cada 15 minutos, de seis milhões de contadores inteligentes a que se juntam ainda os dados de cerca de 70 mil postos de transformação com sensores. “Temos consciência da responsabilidade que acarreta termos tanta informação do nosso lado. Temos também a responsabilidade de partilhar com a comunidade e foi essa consciência que presidiu à criação do Open Data. De nada vale ter uma ferramenta tão poderosa se não houver uma divulgação proactiva”, sublinha João Martins de Carvalho.O projecto do Open Data Academy Challenge é muito mais do que este prémio, tendo iniciativas como um roadshow e webinars nas instituições de ensino superior, onde são lançados desafios – criados em conjunto com municípios e com a RNAE (Rede Nacional de Agências de Energia) – para a resolução de problemas reais. O projecto-piloto foi já iniciado na Universidade de Aveiro, numa parceria com a Câmara Municipal local, na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e no Instituto Superior de Engenharia do Porto, em conjunto com a Agência de Energia do Porto. “Vamos certamente estender a outras regiões do país, porque é uma iniciativa em que toda a gente ganha e estamos a criar conjuntamente”, diz Luís Tiago Ferreira.