Quando o tema é ambiente, os dados mostram um país que sabe o que quer, mas que, pelo menos em parte, continua a fazer o caminho contrário. Portugal é um país de referência europeia: produz 97,8% da sua energia a partir de fontes renováveis e tem das emissões per capita mais baixas da União Europeia. Conta ainda com cidadãos que, a nível continental, são dos que mais exigem a protecção da natureza face ao desenvolvimento económico.Somos, contudo, um país que, desde 1990, mais do que triplicou a sua frota automóvel, desmantelou centenas de quilómetros de linhas de comboio e assistiu ao colapso do uso dos transportes públicos, culminando numa estagnação na redução de emissões: Portugal foi o 3.º país da União Europeia que menos reduziu as suas emissões desde 1990.Os dados divulgados pela Pordata e pelo Eurobarómetro para assinalar o Dia Mundial do Ambiente revelam os paradoxos de um país que anula os seus próprios ganhos.Produção verde, consumo fóssilNa produção de electricidade, Portugal é um caso de estudo. Com 97,8% da produção de energia a partir de fontes renováveis, segundo os dados da Pordata, o país integra um grupo restrito de quatro nações europeias onde a produção limpa ultrapassa os 95%. O carvão praticamente desapareceu do mix energético nacional (representa hoje apenas 0,04%) e o consumo de gás natural (10,2%) é quase metade da média europeia.As famílias portuguesas acompanham este perfil: consomem menos energia do que a média da UE (18% do total nacional, contra 26% na Europa) e apoiam-se maioritariamente na electricidade (43,2%) e em renováveis directas (como o uso de lenha ou painéis solares térmicos, com 36,7%), enquanto o resto da Europa ainda depende fortemente do gás natural para aquecimento e cozinha.O problema reside no consumo final de energia quando se contabiliza a totalidade — famílias, indústria e, sobretudo, transportes. Aí, o petróleo e os seus derivados dominam com 42,9%, acima da média europeia de 37,3%. A explicação: o sector dos transportes absorve 80% desse consumo fóssil.O sector que estraga tudo?Os transportes são o maior emissor de gases com efeito de estufa em Portugal, responsáveis por 34,4% do total — o quarto valor mais alto de toda a UE. Só os automóveis movidos a gasolina e gasóleo correspondem a cerca de 20% de todas as emissões nacionais.O retrato da mobilidade em Portugal é o de um país que foi, progressivamente, abandonando o transporte colectivo. Em 1990, os transportes públicos representavam 29% dos quilómetros percorridos pelos passageiros. Em 2023, esse valor caiu para 12%. Em sentido inverso, o automóvel passou de 72% para 88,2% das deslocações — o terceiro valor mais alto da União Europeia.A rede ferroviária acompanhou este declínio: encolheu de 3126 quilómetros em 1990 para 2526 em 2024, mostram os dados da Pordata. Hoje, o comboio representa apenas 4,2% dos quilómetros percorridos por passageiros, e o autocarro meros 7,5% — ambos abaixo da média europeia.No mesmo período, o parque automóvel mais do que triplicou. Portugal conta hoje com 6.135.517 veículos ligeiros registados: 574 por cada mil habitantes, o equivalente a um carro por cada duas pessoas.Há um sinal positivo neste quadro: em 2024, um em cada um em cada cinco novos carros vendidos em Portugal foi eléctrico, representando mais de 40 mil veículos, um valor claramente acima da média europeia de 13,5% e o dobro do registado apenas dois anos antes. A electrificação da frota, por si só, contudo, não resolve uma dependência que é estrutural.A soma destes factores produz, assim, um resultado paradoxal nas emissões. Portugal é o terceiro país da UE com menos emissões per capita, com 4,8 toneladas de CO2 equivalente por habitante em 2024, atrás apenas da Suécia e de Malta. Só que, entre 1990 e 2024, o país apenas reduziu as suas emissões em 18,6%, tornando-se o terceiro país europeu que menos progresso fez neste indicador. A Estónia, para comparação, cortou as suas emissões em mais de 70% no mesmo intervalo.Resíduos, outro ponto fracoOs transportes não são, porém, o único sector que contraria o panorama verde de Portugal. Os dados da Pordata sobre a distribuição das emissões por sector revelam outro problema preocupante: a gestão de resíduos é responsável por 10,6% do total das emissões nacionais de gases com efeito de estufa, colocando Portugal no primeiro lugar da União Europeia neste indicador.A disparidade face aos outros Estados-membros é expressiva: a média da UE é de apenas 3,5%, o que significa que o peso do lixo nas emissões portuguesas é o triplo da norma comunitária.Em países como a Alemanha ou o Luxemburgo, este sector representa, respectivamente, 0,8% e 1,0% das emissões totais — valores quase residuais quando comparados com os portugueses.Portugueses querem natureza, não betãoSe a mobilidade é o calcanhar de Aquiles, a consciência ambiental é, claramente, o ponto forte. Segundo o Eurobarómetro de 2026, 98% dos portugueses concordam que a saúde humana depende da natureza e da biodiversidade, e a esmagadora maioria reconhece que proteger o ambiente é indispensável para o desenvolvimento económico a longo prazo.A posição mais marcante é a da protecção de áreas naturais: 70% dos portugueses defendem a proibição total de qualquer projecto de desenvolvimento económico que cause danos em zonas protegidas.É o valor mais alto de toda a União Europeia e muito acima da média europeia de 49%. Do lado oposto, apenas 2% consideram que a economia deve ter prioridade sobre a protecção da natureza.