A electrificação automóvel é uma realidade incontornável em Portugal, mas o caminho até à sua consolidação está longe de ser linear. Ricardo Silva, director comercial, marketing e comunicações da Ayvens, traça um retrato a duas velocidades: enquanto as empresas avançam com confiança, impulsionadas por um enquadramento fiscal favorável, os particulares continuam reticentes, travados pelo custo de aquisição e por uma rede de carregamento ainda insuficiente.O Estudo Mobilidade 2026 da Ayvens confirma a tendência: as motorizações electrificadas representam 81% dos perfis mais competitivos da matriz de custo total de utilização (TCO) da empresa, mantendo-se acima dos 80% pelo quarto ano consecutivo. Nos veículos de passageiros, a tendência é ainda mais expressiva: 91% dos perfis com menor TCO correspondem a motorizações electrificadas, e na quilometragem de referência para frotas - 30.000 km por ano - os BEV são a solução mais competitiva em todos os oito segmentos analisados. Em 2026, os 100% eléctricos apresentam uma poupança média de 19% face ao TCO das restantes motorizações, recuperando face aos 16% de 2025.No mercado português, os BEV alcançaram 23,2% de quota em 2025, um crescimento de 17% face ao ano anterior, numa conjuntura em que as vendas europeias de eléctricos cresceram cerca de 30%, ultrapassando definitivamente o diesel. Em Portugal, cerca de 40% da oferta de veículos de passageiros já é electrificada, incluindo 28% de BEV. Em sentido inverso, a oferta a diesel caiu 36% desde 2020, sendo praticamente inexistente nos segmentos B e C."As empresas tomam uma decisão mais racional, focada no custo, na competitividade e no impacto ambiental", explica Ricardo Silva. "Para os particulares, a decisão é também emocional, mas o custo inicial é um forte impedimento - e os incentivos existentes não cobrem a diferença de preço de aquisição." A distinção não é apenas de comportamento: é estrutural. As empresas beneficiam de deduções fiscais que tornam o veículo eléctrico competitivo mesmo face a um carro a combustão mais barato. Os particulares, sem esse suporte, optam maioritariamente pelo mercado de usados.As vendas de automóveis novos em Portugal são, em grande medida, impulsionadas por empresas e pelo mercado de renting, que Ricardo Silva coloca na vanguarda da electrificação. "Quando olhamos para as estatísticas de penetração de veículos eléctricos, o renting está sempre à frente do mercado nacional", sublinha. "Isso acontece porque, além de facultarmos o veículo, acoplamos soluções que endereçam os desafios, como a infra-estrutura de carregamento e o aconselhamento". O estudo nota, contudo, uma desaceleração no crescimento dos BEV no renting em 2025 (-0,6 pontos percentuais face a 2024), explicada pela chegada tardia de modelos do segmento B com preços mais competitivos - previstos para 2026 - e pelas limitações da rede pública de carregamento.