O Brasil tem a oportunidade de atrair investimentos de quase US$ 1 bilhão (R$ 5,9 bilhões) até 2035 em eletropostos para carregamento de veículos elétricos. O crescimento acelerado da venda de carros eletrificados no país (elétricos puros e híbridos plug in) sinaliza que será preciso acelerar a implementação desses postos de recarga públicos nos próximos anos para responder à demanda. Uma das medidas para impulsionar esses investimentos poderá vir das próprias cidades, viabilizando terrenos públicos para a instalação desses eletropostos. Por enquanto, o crescimento dos eletropostos em economias emergentes, incluindo o Brasil, acontece de forma desigual, o que ainda mina a confiança do consumidor em migrar para um carro com essa nova tecnologia. Essas conclusões constam de um relatório que está sendo lançado nesta sexta-feira pela C40 Cities, rede global de megacidades no mundo, que tem seus prefeitos comprometidos em combater as mudanças climáticas, e pela Corporação Financeira Internacional (IFC), braço do setor privado do Banco Mundial focado em mercados emergentes. O estudo foi feito em parceria com o The Climate Pledge (acordo empresarial cofundado pela Amazon e pela organização Global Optimism, que exige que as empresas signatárias alcancem zero emissões líquidas de carbono até 2040) e pela Secretaria de Estado Suíça para Assuntos Econômicos (SECO). O relatório mostra como os governos municipais e nacionais em economias emergentes podem desempenhar um papel decisivo na aceleração da implementação da infraestrutura de recarga para veículos elétricos. O relatório, que recebeu o título de Análise de Mercado da Infraestrutura Pública de Recarga para Veículos Elétricos (VE) em Cidades, analisa tendências de mercado, necessidades de investimento, marcos regulatórios e iniciativas lideradas por cidades em quatro países: Brasil, Colômbia, México e Índia. De acordo com a Agência Internacional de Energia, o número global de pontos de recarga públicos mais que dobrou desde 2022, ultrapassando 5 milhões de carregadores em todo o mundo. Somente em 2024, mais de 1,3 milhão de novos equipamentos públicos foram instalados, representando um crescimento anual de mais de 30% nos últimos cinco anos. Brasil é segundo maior mercado Considerando as necessidades de investimento nos quatro mercados analisados pelo estudo, o valor total dos investimentos chega a US$ 3,8 bilhões até 2035 (R$ 19,7 bilhões). A Índia é o maior mercado com investimentos estimados de US$ 1,9 bilhão (R$ 9,8 bilhões), seguido do Brasil, com US$ 980 milhões, México com US$ 760 milhões (R$ 3,9 bilhões) e Colômbia com US$ 184 milhões (R$ 954 milhões). De acordo com Bianca Macedo, líder global de finanças para transporte limpo na C40, e uma das autoras do relatório, a eletrificação da frota de veículos é uma das maneiras para reduzir as emissões de CO2 no setor de transportes globalmente. Ela lembra que nos quatro países analisados para o relatório procura por carros eletrificados saiu de 40 mil veículos para mais de um milhão de veículos entre 2020 e 2025. Isso representa uma taxa de crescimento de 130% ao ano. No Brasil, no mesmo período, a busca por carros eletrificados saiu de 7,3 mil veículos, para 400.900 veículos em 2025. Esses veículos já representam 6,5% das vendas de carros zero quilômetros no país. Em relação aos eletropostos, diz Bianca Macedo, o Brasil tinha cerca de 800 carregadores públicos e semi públicos (instalados em estacionamentos, shoppings, hoteis) em 2020 e esse número cresceu para 17 mil em 2025. O relatório projeta que o país vai precisar de um crescimento acelerado dessa infraestrutura para chegar a 86 mil pontos de carregamento em 10 anos no Brasil. Por aqui, a tarifação é feita por quilowatt-hora (kWh), unidade de medida padrão que mostra a quantidade de energia elétrica consumida ao longo do tempo. O custo tem variado entre R$ 2 a R$ 3 reais por kWh aqui no Brasil, mostra o estudo. — Hoje, a nossa infraestrutura de recarga é bem concentrada no Sudeste e Sul, especialmente nas cidades de São Paulo, Rio, além de Brasília. O crescimento da infraestrutura de recarga necessário para atender a demanda por veículos eletrificados representa uma oportunidade de investimento enorme, principalmente para os investidores privados. E o Brasil é o segundo maior mercado entre os quatro analisados — diz a autora do estudo, lembrando que relatório analisou, no Brasil, a cidade do Rio de Janeiro. — Um dos principais papéis que a cidade pode ter é usar o controle que tem de terrenos públicos e espaços urbanos para facilitar a implantação dos eletropostos. E o caso do Rio é emblemático, já que a cidade viabilizou projetos pilotos de recarga no ano passado e neste ano. Um deles é na Barra da Tijuca, que é o Eletroposto Carioca, primeiro eletroposto público do Brasil — explica Bianca Macedo. Rio é caso emblemático, mostra relatório Ele foi fruto de uma parceria entre a prefeitura do Rio de Janeiro e a rede C40 Cities. A infraestrutura foi implantada em um terreno público facilitado pelo programa Sandbox.Rio, uma iniciativa que permite testar com clientes reais, sob autorização temporária, produtos, serviços ou processos inovadores. O Eletroposto Carioca é operado pela EZVolt, uma das maiores operadoras de eletropostos do país, ao lado da Zletric. Macedo lembra que o Rio já tem dois eletropostos, que são projetos pilotos: além da Barra, outro ponto de recarga foi instalado na Avenida Brasil e ambos possuem carreghadores rápidos e ultrarrápidos. Os eletropostos do Rio, além de serem utilizados por donos de carros de passeio eletrificados, têm sido utilizados por veículos comericias leves. A cidade tem o compromisso de chegar a 18 eletrpostos públicos até 2028. Em carregadores rápidos de corrente contínua (DC), o tempo médio para carregar um carro elétrico é de 20 a 50 minutos (para atingir de 20% a 80% da carga). Em carregadores ultrarrápidos, esse tempo cai para apenas 10 a 30 minutos. O carregamento rápido é essencial para viagens longas ou para a logística de empresas. Mas no Brasil, os carregadores lentos e semirrápidos representam 77% do total de pontos de recarga em 2025, devido ao seu menor custo e facilidade de implantação em contextos semipúblicos, como shoppings e estacionamentos. — Só a recarga no local da empresa, no galpão ou na garagem, não é suficiente para toda a demanda que vai ser necessária nos próximos 10 anos. Há, por exemplo, um eletroposto semipúblico no Rio, num estacionamento que fica no Distrito Baixa Emissão, na Cinelândia. É um posto de recarga ultra-rápida. O centro dacidade tem essa dificuldade de espaço. Para uma pessoa ter a infraestrutura de recarga na sua residência, às vezes é mais complicado. Por isso, viabilizar esses espaços de infraestrutura pública, no centro, é uma solução muito importante — explica Bianca Macedo. Gerar conforto para o usuário A infraestrutura de recarga é muito importante para que seja gerado "conforto para o usuário" na adoção da eletrificação. Do ponto de vista regulatório, diz Bianca macedo, foi importante uma resolução de 2021 da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) tratando a recarga como um serviço e não uma revenda de energia. A agência reguladora lançou também um consulta pública para entender do setor privado e do setor público, como seria possível flexibilizar ou melhorar a regulamentação para que o processo seja mais rápido. — A Aneel tem um papel fundamental para viabilizar os procedimentos no caso eletropostos, que vão exigir um aumento da rede elétrica — diz. Qual será o tamanho do mercado? Outro desafio para buscar esse investimentos está do lado privado: ainda existe o receio de qual vai ser realmente o tamanho do mercado de eletrificados no Brasil. Por isso, o relatório traz estimativas realistas. — Estamos considerando uma meta realista para daqui a dez anos para que esses números sirvam de base para os investidores. Porque o maior medo do investidor é investir em infraestrutura e não ter a demanda. É o velho dilema do ovo da galinha. O investidor só vai colocar os recursos quando tiver uma demanda mínima. E no relatporio mostramos, que existe sim um retorno de investimento, com margens de lucro entre 20% a 35% — diz Bianca Macedo.