Há uma garrafa que Giampiero Bertolini nunca bebeu e não sabe onde foi parar. Ficava na adega do pai, em posição de destaque, separada das demais como um ícone. O pai a tratava como algo especial. Era um Brunello di Montalcino Riserva 1964 da vinícola Biondi Santi, cuja história se mescla à da Itália e de uma das mais famosas áreas de produção de vinho do mundo. Bertolini bebeu essa safra algumas vezes, na vida e no ofício. Mas aquela garrafa, a do pai, sumiu sem que ninguém a abrisse e ele soubesse o destino.

O ícone doméstico virou ícone nacional. Em 2011, a Associação Italiana de Sommeliers elegeu a Riserva 1964 o melhor vinho da história da Itália e a transformou em símbolo dos 150 anos da unificação do país. A garrafa que o pai de Bertolini guardava sem beber passou a representar a Itália inteira e a ser o lugar de trabalho dele. “A vida é estranha”, diz ele em entrevista ao rememorar a história, antes de um jantar promovido pela importadora Mistral.

Desde novembro de 2018, Bertolini comanda a Biondi Santi, em Montalcino, na Toscana, a vinícola que inventou o Brunello e fez dele o vinho italiano mais conhecido fora da Itália. Foi contratado pelo grupo francês EPI, de Christopher Descours, que comprou a propriedade, em 2017, sob a desconfiança da cidade e do país. A pergunta que ressoava era: os franceses irão mudar um ícone? Era também uma questão para Bertolini.