Em boa hora a Sogrape decidiu apresentar o novo Reserva Especial da Casa Ferreirinha em prova cega alargada, comparando-o com outros cinco grandes vinhos das mais prestigiadas regiões do mundo. “Um encontro de ícones”, todos da colheita de 2017 e com preços igualmente na ordem das centenas de euros a garrafa. Das virtualidades da prova limpa de pré-conceitos já aqui falou Pedro Garcias, na última Fugas. Quanto ao vinho, trata-se da 19.ª edição da referência criada em 1960, que é especial não só pela qualidade e raridade, mas também porque são lotes à partida destinados a Barca Velha.É a última decisão, neste caso após nove anos de caminho, que o leva ao rótulo de Reserva Especial, destinado às “colheitas de qualidade excepcional que expressem plenamente o perfil e o carácter de envelhecimento esperado”, enquanto o Barca Velha está “reservado apenas para aquelas raras colheitas que revelam um potencial de evolução em garrafa comparável ao de um grande Vinho do Porto Vintage”. Mas, como nem o vinho é ciência exacta nem a enologia consegue ainda analisar o futuro, não seria inédito que depois de mais uns anos de evolução em garrafa se chegasse à conclusão de que, afinal, este bem poderia ter sido Barca Velha.Num ano marcado por fenómenos climatéricos como foi 2017, com granizo e geadas severas, por um lado, seca e calor extremo por outro é, precisamente, na relação com os grandes Porto Vintage que está, a nosso ver, a vantagem comparativa deste Reserva Especial 2017 face aos seus reputados concorrentes. Sobretudo mais rico, harmonioso e equilibrado e, por isso mesmo, a destacar-se na prova que juntou vinhos icónicos de Itália (Bolgheri Sassicaia, Tenuta San Guido), França (Cos D’Estournel, Bordéus), Argentina (Cheval des Andes, Mendoza), EUA (Opus One, Napa Valley) e Austrália (Penfolds Grange). Com excepção deste último, 100% com a casta Shiraz, todos com forte presença de Cabernet Sauvignon, enquanto no Reserva Especial predominam a Touriga Francesa (48%) e Touriga Nacional (35%) acompanhadas ainda por Sousão, Tinto Cão e Tinta Roriz.Não será, contudo, uma questão de castas. Mesmo o fino e elegante Bolgheri Sassicaia denunciava algumas notas quentes e maduras por entre o acetinado e subtileza dos taninos, a frescura do Cos D’Estournel não escondia leves nuances de fruta cozida, sobressaindo a acidez no Penfolds Grange ou o calor no Opus One, a reflectir as incidências climatéricas do ano. Mas sendo ao Douro Superior, e a Quinta da Leda, de onde vem o Reserva Especial, uma região quente, onde os termómetros nesse ano facilmente ultrapassaram os 40ºC, como se explica então harmonia e equilíbrio que destacava a densidade fresca e riqueza frutada do Reserva Especial?Essa parece ser a magia do blend, a arte de compor lotes equilibrados e harmoniosos e potenciar a qualidade de grandes vinhos, herdada do Vinho do Porto. Um saber ancestral e único que é uma das características distintivas e bem pode representar uma vantagem competitiva para os grandes vinhos portugueses, mas que com o advento do novo mundo e o protagonismo das castas quase nos esquecemos de invocar. É que a par da variedade de castas autóctones e da diversidade geográfica, temos também um longo e profundo conhecimento da arte de lotear. E isso pode mesmo fazer a diferença, como em nosso entender bem demonstrou este confronto do Reserva Especial num ano desafiante para os grandes vinhos do mundo.
Especial mesmo entre grandes vinhos do mundo
Rico, harmonioso e equilibrado, não seria inédito que com mais uns anos de evolução em garrafa cheguemos à conclusão de que, afinal, este Reserva Especial 2017 bem poderia ter sido Barca Velha.









