Se hoje o Brunello di Montalcino é um dos vinhos icônicos do mundo, vale conhecer a vinícola da Toscana, no Centro da Itália, que ajudou a escrever essa história. É a Biondi-Santi, marca familiar com raízes no século XIX. Esse vinho tinto é feito apenas com a uva Sangiovese e famoso por sua potência e longevidades. Ele é classificado como uma denominação de origem controlada e garantida (DOCG) e obedece a rígidos critérios de elaboração. Em visita ao Rio, Giampiero Bertolini, CEO da Biondi-Santi, contou que, no passado, a região não produzia bons vinhos: — É uma história muito longa, que começou em 1865, quando a família criou o nome Brunello. O nome Brunello deriva da cor do vinho; bruno, em italiano, significa escuro. Eles decidiram chamar de Brunello um vinho produzido em Montalcino. Mas foi Ferruccio Biondi-Santi que teve a visão de criar algo muito diferente na Toscana. Naquela época, a Toscana não produzia vinhos de qualidade. Eram apenas vinhos que faziam parte da alimentação para fornecer calorias, e não para se apreciar a qualidade. Cacho de Sangiovese em vinhedo da Biondi-Santi — Foto: Divulgação / Biondi-Santi Ferruccio Biondi-Santi decidiu produzir um vinho que reunisse tanto qualidade quanto longevidade. Segundo Bertolini, essa visão foi mantida pelas gerações seguintes: — Na Itália, existem apenas duas vinícolas que podem realmente traçar sua história até a origem da denominação de origem: a Biondi-Santi e a Sassicaia (da família Borghese). Por isso, a Biondi-Santi se tornou uma das vinícolas mais importantes da Itália. Ainda guardamos em nossa adega todos os vinhos desde 1888. Grupo francês no comando No fim de 2017, a Tenuta Greppo e a marca Biondi-Santi foram vendidas para o grupo francês EPI é dono dos champanhes Piper-Heidsieck e Charles Heidsieck. — Desde então, estou lá com uma nova família. Temos dedicado muitos esforços e recursos para preparar o futuro da Biondi-Santi com base no seu passado. Portanto, é preciso respeitar as raízes e o DNA do vinho; estamos preparando o futuro dos nossos vinhos, em meio a um cenário de mudanças climáticas — de modo a preservar o estilo que os caracteriza — afirma Bertolini. Ele detalha que, desde 2003, a temperatura na Toscana vem aumentando de forma constante, muito mais do que nos 30 anos anteriores. — Obviamente, isso se reflete no vinho, resultando em maior teor alcoólico, estrutura mais robusta e menor acidez, características que fogem ao nosso estilo habitual. Estamos trabalhando intensamente nos vinhedos, cuidando do solo e das videiras para proteger o perfil dos vinhos. Temos sorte por estarmos em Montalcino, na parte mais alta da colina. Além disso, a denominação de origem alterou as normas para permitir o plantio de vinhedos em altitudes maiores. Como já estamos na área mais fresca, isso é uma vantagem. No entanto, precisamos também cuidar do solo e manejar as videiras de modo a proteger a fruta do sol. Vinhedo da Biondi-Santi, na Toscana — Foto: Divulgação / Biondi-Santi Para lidar com as mudanças climáticas, ele explica que foram adotadas medidas como o uso de redes nos vinhedos: — Aquelas redes de proteção contra o granizo também protegem do calor. Estamos fazendo testes nas videiras agora. É uma rede plástica em duas cores, branca e preta, pois têm efeitos diferentes. Além disso, os novos vinhedos foram plantados de forma a proteger os frutos do calor. Basicamente, a estrutura faz com que as videiras fiquem como um guarda-sol. Ao mesmo tempo, o vento consegue circular, o que é muito importante, pois o vento elimina a umidade e previne doenças. Para manter os solos "vivos", a vinícola também usa, desde 2018, a agricultura regenerativa: — Buscamos criar um solo repleto de vida. A cada ano, semeamos o solo com diferentes tipos de plantas que mantêm as raízes ativas e permitem a entrada de ar, além de atrair muitos insetos, o que é fundamental para os microrganismos que reconstituem a matéria orgânica do solo. As videiras ficam muito saudáveis. Essa combinação de solo e videira, com tal estrutura, reduz a temperatura no vinhedo, resultando em um teor alcoólico mais baixo e boa acidez, ao mesmo tempo em que protegemos a fruta. Os vinhedos são cuidados seguindo práticas orgânicas, mas não somos certificados. Giampiero Bertolini, CEO da Biondi-Santi — Foto: Cláudia Meneses / Agência O Globo Uma uva difícil de cultivar Bertolini revela que o Brunello di Montalcino é um grande vinho porque a região onde é produzido é um dos poucos lugares na Itália onde realmente se consegue obter alta qualidade com a uva Sangiovese. — A Sangiovese é uma variedade muito difícil de cultivar. Ela é muito delicada e exige um solo excelente, além de condições específicas de exposição e altitude, para expressar todo o seu potencial. Montalcino oferece uma combinação fantástica: trata-se de uma região de colinas com diversos tipos de solo ao seu redor. Se o trabalho de extração das características do solo for bem feito, obtêm-se perfis de sabor distintos a partir da mesma Sangiovese, justamente porque os solos variam. Ao extrair essas nuances, dispõe-se de uma grande variedade de elementos para elaborar um vinho excepcional. Montalcino é especial devido à singularidade do solo: há áreas argilosas nas partes mais baixas da colina, enquanto nas partes mais altas predominam solos arenosos — o chamado galestro, um tipo de solo formado por areia compactada. Isso confere estrutura, complexidade e um perfil aromático único aos vinhos. — Acredito que a palavra-chave seja "singularidade" — uma combinação de solos excelentes e variados, altitude e exposição solar. É por isso que a Sangiovese consegue alcançar tamanha complexidade e taninos macios, especialmente nessa região. Giampiero Bertolini revelou que o preço da terra em Montalcino gira em torno de 1 milhão de euros por hectare: — É o mesmo valor de um hectare em Champagne, sendo atualmente a terra mais cara da Itália. Grande parte desse valor foi construída pela família Biondi-Santi. Eles sempre mantiveram o valor elevado e compartilharam com a comunidade o modo de produzir bons vinhos numa época em que ninguém pensava nisso. O maior mercado é a Itália, que responde por cerca de 30% da distribuição. Os vinhos são exportados para 55 países ao redor do mundo. — Os Estados Unidos são nosso maior mercado no exterior. Também são importantes a China e o Reino Unido. Para nós, o Brasil é um caso interessante, pois é o segundo mercado do mundo em termos de reconhecimento da marca Biondi-Santi; é impressionante. Apesar do tamanho do país, em termos de volume de distribuição para nós, ele não é tão grande quanto o Reino Unido, a China ou a Suíça, mas o reconhecimento da Biondi-Santi aqui é muito alto. A família Biondi-Santi provavelmente fez um excelente trabalho ao vir para cá e marcar presença no mercado. Giampiero Bertolini conta que muitos brasileiros visitam Montalcino. — É um público muito específico que vem para cá; não é comum que pessoas dessa parte do mundo visitem Montalcino. Existe esse vínculo com o país, que é muito importante, e também o vínculo específico com a Biondi-Santi, que é igualmente importante. A combinação desses fatores é fundamental para nós. E nosso parceiro aqui, a Mistral, faz ótimo trabalho, tanto em restaurantes de destaque quanto com clientes particulares. Honestamente, prevejo um crescimento muito bom para o próximo ano. Ele avalia ainda que a redução das tarifas em razão do acordo da União Europeia com o Mercosul será muito benéfica para a Itália, especialmente para vinhos premium. — Com isso, provavelmente haverá menos grey market (mercado cinza - venda por canais não autorizados). Você sabe que hoje há produtos entrando no Brasil vindos do país vizinho por causa da tributação. Estou otimista e, por isso, decidi, finalmente, dedicar um tempo para vir aqui no Brasil e aprender mais. E meu plano é vir com mais frequência, pois vejo um potencial muito bom. Falar com as novas gerações Bertolini avalia que é responsabilidade da Biondi-Sandi falar com às gerações mais jovens de forma diferente: — Precisamos envolvê-los de um jeito diferente do que fazíamos no passado. Porque eles têm interesse em saber mais, em conhecer histórias. O storytelling é muito importante para eles, mas precisamos fazer isso de forma diferente: sem excesso de termos técnicos, pois isso os entedia. Eles querem ouvir histórias de um jeito simples; não querem se sentir intimidados pelo vinho ou pelos sommeliers. Precisamos mudar nossa abordagem, e eles ficarão muito felizes em consumir vinho. É nossa responsabilidade mudar isso. Tentamos fazer isso quando convidamos a geração mais jovem para visitar a propriedade. É algo bem descontraído, sem formalidades. Ele conta que foi criado o projeto La Voce di Biondi-Santi, um podcast — com a voz dele e do enólogo — que aborda as safras do vinho e os valores da marca: — "La Voce" significa "a voz"; basicamente, é um projeto muito simples no qual levamos nossa voz ao mundo. Esse conteúdo fica disponível em um aplicativo que criamos, onde é possível acessar todas as edições. O projeto foi iniciado há cinco anos. A cada ano, definimos uma palavra que nos representa — como equilíbrio ou respeito. Este ano, a palavra é "geração". É um projeto pensado principalmente para as gerações mais jovens, que preferem ouvir a ter de ler textos maçantes. Levamos nossa própria voz às pessoas ao redor do mundo; você pode escanear o código nas garrafas para acessar nosso universo de podcasts de cada ano. Também são produzidos audiolivros escritos por autores independentes: — Fornecíamos uma palavra — como "geração" ou "equilíbrio" — e eles criavam uma história baseada nela. Não eram histórias sobre vinho, mas sim narrativas que transmitiam nossos valores e nossa filosofia de uma maneira diferente. Esse trabalho é feito com escritores mais jovens; para o tema "geração" deste ano, por exemplo, convidamos cinco autores — todos jovens e vindos da Itália, de uma escola de escrita italiana. Vocação gastronômica Bertolini frisa que o Brunello di Montalcino, especialmente o da linhagem tradicional, como o da Biondi-Santi, tem grande vocação gastronômica Existem duas categorias principais de Brunello. Atualmente, as diferenças estão diminuindo, mas, no passado, havia o Brunello "moderno" — caracterizado por uma estrutura alcoólica robusta — e o tradicional, que é o caso do Biondi-Santi. Hoje em dia, o estilo tradicional tem ganhado cada vez mais espaço, pois as pessoa— s estão voltando a apreciar essa abordagem. Segundo Bertolini, o Brunello di Montalcino Biondi-Santi apresenta um final salino no paladar, que harmoniza com diversos tipos de pratos. — Isso é muito importante na gastronomia. Por exemplo, recomendamos harmonizá-lo com frutos do mar, o que pode parecer incomum. Por ser um vinho delicado e possuir esse final salino que "limpa" o paladar, ele combina muito bem com frutos do mar de sabor mais intenso, resultando em uma harmonização excelente. O Biondi-Santi Rosso di Montalcino 2021 — Foto: Divulgação Da Biondi-Santi, Bertolini apresentou o Rosso di Montalcino 2021, feito com uvas Sangiovese. Para o crítico Robert Parker, trata-se de um tinto "delicioso, com notas de cereja, florais e especiarias". — Ele tem uma boa estrutura e uma elegância genuína. Ele serve como porta de entrada para o nosso mundo e reflete verdadeiramente o nosso estilo. Tem uma fruta bela no nariz e grande energia no paladar. No nariz, percebe-se uma fruta encantadora. Normalmente, nosso teor alcoólico é baixo em comparação com a média de outros Brunellos; conseguimos manter o álcool mais baixo colhendo um pouco mais cedo, evitando que os níveis subam demais. O Biondi-Sandi Brunello di Montalcino 2019 — Foto: Divulgação O Biondi-Sandi Brunello di Montalcino 2019 obteve 97 pontos de Robert Parker e de James Suckling. Foi produzido a partir de uma seleção de uvas Sangiovese de vinhedos próprios. Foi vinificado em recipientes de carvalho, concreto e aço inoxidável; e estagiou em barris de carvalho da Eslavônia por 30 meses. — A safra 2019 é um vinho acessível, mais fácil. É um vinho suculento. Os críticos dizem que a safra de 2019 é excelente. O Brunello di Montalcino Riserva 2018 — Foto: Divulgação O Biondi-Sandi Brunello di Montalcino Riserva 2018 é feito com uvas dos vinhedos mais antigos. Conseguiu 98 pontos da Wine Enthusiast, além de 97 pontos de Robert Parker e James Suckling. Foi vinificado tanto em barris de carvalho da Eslavônia quanto em tanques de concreto; e estagiou em barris de carvalho da Eslavônia por 3 anos. — O Riserva de 2018 é um vinho incrível. No caso dele, a lógica da família para a produção baseava-se na idade do vinhedo. As uvas eram de vinhas com mais de 25 anos. Hoje não fazemos mais assim. Alteramos nossa abordagem após realizarmos um estudo de parcelamento de solo com o chileno Pedro Parra. Estamos aprendendo quais áreas são ideais para o Riserva. Não está necessariamente ligado à idade das vinhas, mas sim ao perfil de vinho que desejamos obter. Um vinhedo mais antigo não garante, necessariamente, um vinho melhor. Os vinhos são importados pela Mistral. Os preços são: Rosso di Montalcino 2021 (R$ 1.693,04); Brunello di Montalcino 2019 (R$ 4.139,45); e Brunello di Montalcino Riserva 2018 (R$ 11.917,79).
Biondi-Santi: conheça a vinícola que criou o Brunello di Montalcino, um dos vinhos mais admirados do mundo
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