Quem vive em Lisboa sabe que os vizinhos ou são invisíveis — fantasmas com quem nos cruzámos por acidente e que, na melhor das hipóteses, nos devolvem um bom-dia fininho, quase imperceptível — ou uma praga em forma de gente que parece ter retirado parte da própria vida para nos atazanar o juízo, num tom paternalista de quem se julga modelo de conduta no reino dos condóminos.Detesto esta palavra, condóminos, como detesto, aliás, todo o ambiente de um condomínio. A verdade é que preferíamos que eles não existissem. Ou fazem demasiado barulho, arrastando móveis de um lado para o outro, tocam piano ao calhas como pequenos Chopins falhados, gritam com os miúdos e batem a porta da rua como se fossem proprietários de uma moradia plantada no meio de um deserto imaginário, ou, pelo contrário, queixam-se de nós ao mais ínfimo ruído doméstico, capaz de ir do ar condicionado ligado em modo de sobrevivência ao Hades citadino até ao mais anódino triturar de legumes para a sopa com uma varinha mágica topo de gama.É que ninguém os atura.Há tempos, uma vizinha veio queixar-se da minha ventoinha — é verdade, ainda não ganho o suficiente para instalar um ar condicionado —, dizendo que aquilo fazia muito barulho, que lhe perturbava o teletrabalho, que eu fazia o favor de a desligar ou então chamava a polícia.Incapaz de conter uma gargalhada perante uma ameaça tão absurda, fui brindada com um insulto que não vou aqui mencionar. Tive então de me chatear a sério, e eu nem disposição tinha para isso. Expliquei-lhe que era advogada e que era eu quem lhe ia pôr um processo em cima.Como não nos conhecemos, ela não sabe que sou professora do primeiro ciclo numa escola de índios que me consome o juízo e nunca me encheu a carteira, e que jamais teria dinheiro ou energia para lhe mover fosse o que fosse num tribunal. Mas não me fiquei por ali. Arranjei maneira de ficar com o embrulho que o carteiro me confiou quando ela não estava em casa e, agora, estou aqui sentada junto da ventoinha, vestida com o fato de banho novo dela, uma sorte imensa calçarmos ambas o mesmo número e vestirmos o mesmo tamanho, a rir-me baixinho do banho que lhe estou a dar.