Portugueses chegam "a casa". Brasileiros chegam "em casa" —a menos que, cerimoniosos em sua própria casa, decidam arremedar a regência estrangeira com o argumento de um "padrão" intocável, escrito na pedra, à margem da história.

Coitados. Quando superamos o impulso infantil de, para ganhar pontos com a professora, engolir qualquer artificialismo que tentem nos enfiar goela abaixo —só aí tomamos posse da língua materna.

A posse devia ser natural, automática. No caso dos países que são filhos do colonialismo europeu, séculos de uma história frequentemente violenta, com línguas morrendo pelo caminho, tornam tudo mais complicado.

Línguas têm alma. A do português brasileiro, cozida num tacho com idiomas indígenas e africanos e curtida no sólido desprezo à educação que nossos ex-colonizadores praticavam tanto aqui quanto em casa, é bem diferente da alma do português europeu.

Em 1872, o escritor José de Alencar, muito atacado por seus "brasileirismos", traduziu a diferença numa pergunta: "O povo que chupa o caju, a manga, o cambucá e a jabuticaba pode falar uma língua com igual pronúncia e o mesmo espírito do povo que sorve o figo, a pera, o damasco e a nêspera?".