Nós temos, como o Brasil, um passado pela frente e pelos lados. Complexas conjugações para lidar com o vasto universo além do presente 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Bandeiras de Portugal e Brasil — Foto: Mauricio Fonseca Dizem que português é uma língua complicada. Eu acho que complicados somos nós. Criaturas deliciosamente complexas, que não se contentam com o que foi, é e será, e por isso se estendem em possibilidades, hipóteses, devaneios. Tomemos como exemplo a Ana e um beijo. Fosse esta uma mulher simples, a ação se daria no passado (Ana beijou), presente (Ana beija) ou futuro (Ana beijará). Fim da história para nossa protagonista de claras intenções e ações concretas. Ocorre no entanto que o beijo pode não ter sido dado. Em vez de um ato, ele se torna abstração. Nós criamos um tempo verbal exclusivo para tal conjectura, o futuro do pretérito. Nele, Ana beijaria. E não satisfeitos em definir o que foi potencialmente o maior erro da vida da Ana, ainda ressaltamos a coisa pelo futuro do pretérito composto, no qual três verbos validam o remorso: Ana poderia ter beijado. Ana está satisfeita? Não está. Ela deixou de ter a vida interior do tamanho de uma ameba para se remoer por dentro. Ana não beija, beijou ou beijará, mas ela gostaria, deveria, poderia beijar ou ter beijado. O beijo sai da ação para habitar nossas mentes, e é justo a ausência no mundo real que faz com que criemos esta caixinha imaginária, onde o beijo que não foi dado se dá. O futuro do pretérito é o mais filosófico dos tempos verbais. Nasceu da insatisfação com o presente e da necessidade de alimentar um segundo mundo, imaginário e intransferível. No aqui e agora é vida que segue, e no entanto para seguir precisamos escapar para este outro lugar com hipóteses. Você estudaria se pudesse voltar no tempo. Deveria ter ido com a Débora para Floripa. Deveria ter pedido desculpas e poderia ter dito que gostava. Mas você não disse, não fez e não foi, e agora tem que arcar com o peso das escolhas, do remorso e da inércia, tangíveis pelo futuro do pretérito. Cada um e todos nós, lidando diariamente com irrealizações. Construindo esta vida imaginária e paralela, onde se dá o que não se deu. Portanto não foi um sádico gramático do tempo de Matusalém que criou a multitude de tempos verbais. Foram as angústias dos seus antepassados. Foi a necessidade humana por abstrações. O futuro do pretérito composto, ali para elaborar arrependimentos (você deveria ter amado). O futuro do presente para expressar otimismo e desejo (você amará). O infinitivo pessoal para quando o desejo for acanhado (você gostaria de amar). O imperativo para você deixar de ser besta e se enfiar na vida (ama tu). O gerúndio para provar que você entendeu a que veio e permanece amando. O pretérito mais que perfeito, que a esta altura só serve para provar que você é muito velho, do tempo em que você amara, talvez inspirado pelos poetas já não lidos das tertúlias da Rua do Ouvidor. Fôssemos mais simples nós amaríamos e só. Isso me lembra Millôr Fernandes, quando disse que o Brasil tem um longo passado pela frente. É frase altamente política e que pego emprestada para este breve tratado filosófico linguístico. Os 16 tempos verbais existem para expressar as complexidades da alma. Nós temos, como o Brasil, um passado pela frente e pelos lados. Complexas conjugações para lidar com o vasto universo além do presente. Com o que poderia ou poderá se dar.
Filosofias do Português
Nós temos, como o Brasil, um passado pela frente e pelos lados. Complexas conjugações para lidar com o vasto universo além do presente








