Não pode haver hierarquias dentro da língua. Talvez seja uma utopia, Mas necessária para evitar nacionalismos linguísticos e risco de fragmentação Fila de turistas em frente ao Mosteiro dos Jerônimos, em Lisboa, monumento histórico relacionado à Era das Navegações que expandiu a língua portuguesa para outras partes do mundo — Foto: Patrícia de Melo Moreira/AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você O avanço de discursos nacionalistas e xenófobos em Portugal contra a comunidade brasileira ameaça fragmentar o idioma, motivando debates sobre a necessidade de uma nova designação que represente a igualdade entre todos os falantes O desmembramento do servo-croata após o colapso da Iugoslávia gerou altos custos burocráticos para a União Europeia sem trazer benefícios práticos aos países CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Uma breve declaração minha a este jornal, na passada semana, afirmando que talvez fosse altura para pensar numa designação mais apropriada para a língua portuguesa, provocou irritação em Portugal. Muitas das pessoas que se indignaram leram apenas a manchete. Outras, nem sequer conseguiram ler a manchete até ao fim. Compreendo — é um esforço enorme. Não me atrevo a pedir-lhes que tentem ler esta coluna, de uma ponta a outra, tanto mais que nos tempos que atravessamos, muita gente não quer debater. Também isso exige esforço. Essas pessoas querem apenas indignar-se. Tem videocassete parado em casa? Arquivo Nacional está precisandoRuth de Aquino: O planeta mulher Para entrar no tema que me interessa vale a pena começar por lembrar o destino da língua servo-croata que, na sequência do colapso da Iugoslávia, terminou sendo, também ela, desmembrada. Os sérvios, os croatas, os bósnios, os montenegrinos, decidiram que falavam línguas diferentes, e, num esforço para que isso parecesse autêntico, começaram por inventar diferentes ortografias. A Croácia integra a União Europeia. Montenegro e Sérvia estão em negociações para conseguirem a integração. Uma das dificuldades tem a ver com a tradução. Ambos os países exigem tradutores e intérpretes para o “sérvio” e o “montenegrino”, algo que está levantando problemas dentro da UE devido aos altos custos, e a já existirem tradutores e intérpretes para o croata. A UE seria forçada a triplicar os custos, para traduzir três variedades de um mesmo idioma. Resumindo: o desmembramento do servo-croata não beneficiou ninguém. Enfraqueceu cultural e politicamente todos os países que falam a língua. As variedades de uma qualquer língua costumam divergir em situações de isolamento. Eventualmente, autonomizam-se. A língua portuguesa vive um momento oposto. Nunca existiu tanto trânsito de pessoas, e de palavras, dentro dos territórios onde se fala a nossa língua. Nunca houve tanto reconhecimento mútuo. As diversas variedades do português não estão se afastando. É o contrário, estão numa dinâmica de aproximação. Contudo, existe um risco de fragmentação. Por quê? Entre outros motivos devido à expansão de sentimentos nacionalistas. O crescimento da extrema-direita em Portugal vem sendo acompanhado pela multiplicação de discursos de ódio contra imigrantes — incluindo a comunidade brasileira. Muitos desses discursos centram-se na rejeição do sotaque ou de expressões do português brasileiro. Estas práticas estúpidas, xenófobas, repercutem no Brasil, exacerbando o nacionalismo linguístico. Cresce o número de brasileiros que — como o escritor Sérgio Rodrigues — defendem o reconhecimento de uma “língua brasileira”. Uma forma de combater as tentativas de fragmentação da língua seria adotar uma designação para a mesma capaz de exprimir aquilo que ela é hoje — um idioma vibrante, que pertence de igual para igual a todos aqueles que a falam e reinventam. Não há donos da língua e não pode haver hierarquias dentro dela. Talvez seja uma utopia. Mas é uma utopia necessária.
Os donos da língua
Não pode haver hierarquias dentro da língua. Talvez seja uma utopia, Mas necessária para evitar nacionalismos linguísticos e risco de fragmentação












