Dizia J.R.R. Tolkien (1892-1973), um dos maiores linguistas de sua época que, nas horas vagas, acabou escrevendo "O Senhor dos Anéis", que a história da linguagem humana provavelmente é mais complexa que a trajetória biológica da nossa espécie. Desconfio que ele estivesse certo, mas a afirmação, de qualquer modo, deixa de lado uma variável importante: as situações em que essas histórias acabam interagindo entre si, e que estamos só começando a elucidar.
OK, é claro que, sob muitos aspectos, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Um bebê angolano adotado por chineses e uma criancinha tailandesa que for criada no Brasil crescerão falando chinês e português, respectivamente, sem o menor sotaque e com completa fluência, mesmo sem nenhuma ligação genealógica com os pais adotivos e a população de seu novo país.
No entanto, processos históricos mais amplos podem acabar criando correlações intrigantes entre a composição populacional de uma região e a variabilidade dos idiomas falados nela, conforme indica um estudo publicado recentemente na revista especializada PNAS.
Eis as conclusões dos autores da pesquisa, liderados por Anna Graff e Balthasar Bickel, do Instituto para o Estudo Interdisciplinar da Evolução da Linguagem, na Universidade de Zurique. Numa análise englobando mais de 4.000 línguas do mundo todo, eles verificaram que existe uma correlação inversa entre diversidade genética humana, de um lado, e diversidade linguística, de outro. Ou seja, áreas em que a população é geneticamente diversificada têm, paradoxalmente, baixa variabilidade em suas línguas, e o contrário também é verdadeiro.










