Algumas das coisas mais interessantes que eu sei sobre a língua portuguesa aprendi com um húngaro. Esta lição não é exatamente sobre língua portuguesa, mas é sobre língua.

Em "Não Perca o Seu Latim", Paulo Rónai conta que o imperador Sigismundo se enganou no gênero de uma palavra e ordenou que, dali em diante, a palavra passasse a ter o novo gênero que a sua ignorância tinha inventado.

Foi aí que um monge, recusando a ideia, proferiu a frase célebre: "Caesar non supra grammaticos", ou "o imperador não está acima dos gramáticos", isto é, não manda na gramática. É um argumento com o qual é fácil simpatizar —de fato, ninguém manda na gramática, nem mesmo um imperador.

O escritor José Eduardo Agualusa propôs que, por ter evoluído em contato com o árabe, o guarani, o kimbundo, etc., a língua portuguesa mudasse de nome para língua geral.

O problema é que esse maravilhoso processo evolutivo é precisamente o que torna a nossa língua particular. E particular é o antônimo de geral. Por outro lado, o processo que Agualusa descreve é comum a todas as línguas vivas, o que se verifica no modo como o inglês evoluiu e evolui nos Estados Unidos, no Canadá, na Austrália e no Reino Unido; acontecendo o mesmo ao espanhol em Espanha, Argentina, México, Uruguai e Peru, e ao francês em França, Costa do Marfim e Canadá.