No 10 de Junho, celebramos Portugal, Camões, a língua portuguesa, as comunidades e, pelo meio, ouvimos discursos sobre identidade nacional. Confesso que quando penso no meu país, muitas vezes não me lembro apenas de Camões. Lembro-me de um carro parado à porta de um café, algures num bairro periférico, vidros meio abertos, graves a fazer tremer ligeiramente a chapa e uma voz a rimar sobre uma vida que dificilmente caberia num discurso presidencial.Receio que possa soar a heresia, mas suspeito que parte da história do país das últimas décadas não foi escrita apenas em livros, jornais ou relatórios estatísticos: foi rimada. Há um Portugal que raramente aparece nos retratos oficiais: o dos subúrbios, dos bairros esquecidos, das viagens intermináveis de transportes públicos, das pessoas que crescem entre dificuldades, pequenos crimes, violência, desemprego, sonhos adiados e uma persistente sensação de invisibilidade.Goste-se ou não, foi o hip hop tuga quem muitas vezes decidiu contar essas histórias. Há quem o considere um género menor. Música de “gunas/mitras”, muitas vezes considerada agressiva, demasiado crua, pouco elegante para entrar nos salões respeitáveis da cultura nacional. Como se uma orquestra purificasse aquilo que o bairro contaminava, como se o fado, a música clássica ou a chamada “grande cultura” tivessem currículo, enquanto o rap tivesse cadastro.