Cada época tem suas alegorias preferidas. A nossa consagrou o computador: do cérebro ao universo, tudo pode ser um computador. Inclusive a cultura. Nessa visão, modelos de linguagem são o novo sistema operacional da realidade social e a resposta ao prompt é a memória RAM, que perde continuidade como quem se enrola num raciocínio.

As interfaces se multiplicam das telas para a voz e até para as ondas cerebrais. Os periféricos incluem vídeo, texto e exame médico, com o corpo já convertido em dado. As saídas seguem para outros executores, hoje chamados de agentes, e também para nós, que carregamos o cérebro como tábua de registro.

A posição reconfortante nesse mundo em que tudo é IA é a passividade diante dos registros que se inscrevem na gente. Afinal, já não é preciso pesquisar fontes diversas ou sustentar a demora de uma dúvida.

O conhecimento surge formatado para consumo depois de um pedido rápido e, com uma pitada de autoengano, é fácil se orgulhar de uma ideia no fundo forjada pela IA. Para piorar, o valor social da erudição perde terreno, como se formar repertório próprio fosse uma mania de outro tempo.

Há uma diferença abissal entre escrever por dentro desse sistema operacional e ser escrito pelo conhecimento embarcado nele. De um lado, trata-se de inscrever tendências, puxar combinações, produzir desvios; de outro, de ser atravessado pelo repertório médio que a máquina devolve com cara de pensamento próprio. A separação se percebe nos raciocínios e nas formas de expressão que, ao longo de anos, favorecem destinos muito diferentes.