O quadro mais famoso de David Hockney mostra os respingos da água numa piscina. Alguém acaba de mergulhar num espelho esplêndido. No fundo, uma casa de linhas retas e uma cadeira vazia. Tudo é duro, estável, permanente, menos o jorro da água que perturba a ordem e nos dá a certeza de que alguém está ali, embora invisível.

Um dos maiores nomes da arte do século 20, o britânico, morto nesta quinta (11), construiu na ensolarada Los Angeles, onde viveu na década de 1960, esse registro pleno do desejo e da solidão. "A Bigger Splash", uma das telas mais emblemáticas da história da arte, é nada mais que a constatação de estarmos sozinhos num mundo de presenças frágeis, companhias instáveis.

Hockney contava em entrevistas que pintar os respingos, a água em movimento, deu muito mais trabalho do que retratar a casa ao fundo e duas palmeiras indefectíveis ao lado. A construção térrea, típica do modernismo californiano, e as árvores são itens permanentes da paisagem, pétreos, enquanto a piscina tomada de assalto é coisa de segundos, uma superfície violada por instantes que, no entanto, parece mais imortal do que as pedras.

Ele estava apaixonado, de fato, pelo amante do momento, mas mais ainda pela ideia de que o desejo pode ser vivido e mostrado dentro do registro dos quadros, a pintura como índice da exuberância de um mundo de possibilidades. Hockney sempre se disse interessado, acima de tudo, pela beleza e pela luz.