Morto aos 88 anos, o artista inglês não usava cores para descrever o mundo e sim para descordalo 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 David Hockney, em foto de 2016 — Foto: Jean-Pierre Gonçalves de Lima / Divulgação RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 19/06/2026 - 20:11 David Hockney, Pintor Inglês, Morre aos 88 Anos; Legado de Alegria e Cor Persiste David Hockney, renomado pintor inglês, faleceu aos 88 anos, deixando um legado vibrante que desafiou normas e preconceitos. Conhecido por suas obras coloridas que capturavam piscinas da Califórnia e a vida gay com otimismo, Hockney usava a cor para discordar do mundo. Ele acreditava na alegria como resistência e na criatividade sem limites, mesmo em idade avançada. Seu lema, "não podem cancelar a primavera", inspira resiliência e renovação. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO David Hockney, morto em Londres na semana passada aos 88 anos, foi o pintor inglês que transformou piscinas da Califórnia, jardins da Normandia e o amor entre homens em algumas das imagens mais reproduzidas da arte do século XX. Nascido em 1937 em Bradford, cidade de fuligem e carvão no norte da Inglaterra, passou a vida fugindo do cinza. Quando se mudou para Los Angeles, nos anos 1960, os azuis explodiram: piscinas rasas e elétricas, daquele tom que não existe na natureza nem na memória de ninguém antes dele. Pintou luz, água, jardins, o reflexo trêmulo das plantas. Não usava a cor para descrever o mundo. Usava para discordar dele. Discordou, inclusive, do destino que lhe haviam reservado. Filho de operários, gay, sotaque do norte ridicularizado nos corredores do Royal College of Art, respondeu à maneira mais elegante possível: desenhando melhor que todos. E fez o que pouquíssimos ousavam. Em 1961, ainda estudante, pintou “We two boys together clinging” — dois rapazes abraçados, uma das primeiras afirmações explícitas da identidade queer na arte britânica. O sexo entre homens só seria parcialmente descriminalizado na Inglaterra em 1967. Ironicamente, ele partiu no mês em que o mundo se lembra da comunidade LGBTQIAPN+. Hockney não pintou a vida gay pela dor. Não recorreu à violência, à droga, à marginalização, esse repertório sombrio que tantos esperam de nós. Decidiu retratar as diferentes formas de amar na contramão da tragédia e da tristeza: a manhã preguiçosa, o chuveiro, o amante saindo da piscina, a domesticidade, a ternura, o desejo tratado com a naturalidade de quem nunca achou que devia se esconder. Em 1964, mudou-se para Los Angeles em parte para escapar do moralismo e da censura britânica, e de lá mandou o recado, em cores vibrantes, de que a felicidade ordinária é assunto sério e um direito de todos. Tornou ridículo o preconceito contra ela. Clássico da arte queer, a cena do mergulho reflexivo inspirou “Retrato de um artista (Piscina com duas figuras)”, de David Hockney e pontua várias cenas de “Dueto dos ausentes” — Foto: Reprodução Tampouco, temeu a técnica nova. Fotografou em Polaroid, montou colagens que fraturavam o espaço, e velho, numa cadeira de rodas, comprou um iPad e pintou nele três horas por dia. Como Matisse fazendo seus recortes no fim da vida, recusou a ideia de que corpo velho ou doente significa criatividade diminuída. Vestia-se segundo a mesma lógica: sandálias Crocs amarelas para conhecer o rei Charles III, ternos em cores impossíveis, óculos de aro grosso que eram também obras de arte. “Cadê o estilo?”, reclamava do moletom alheio. Durante a pandemia, trancado na Normandia, pintou a chegada da primavera. Retratou os galhos voltando a brotar, as florezinhas amarelas boiando sobre a água e a alegria de um jardim bagunçado em meio ao nosso longo inverno virtual. Mandava aos amigos uma frase que virou seu lema: “they can’t cancel the spring”. Não podem cancelar a primavera. Ela se tornou meu mantra matinal, e me pego repetindo-a nos dias em que me sinto tentando a nublar. Hockney sabia que a primavera não é uma ingenuidade, mas uma escolha. Ou talvez uma evidência inescapável que nos obriga a renascer diante dos desafios. Num mundo em que o pessimismo e o cinismo viraram sinais de sofisticação, ele teve a coragem de acreditar no poder da alegria como forma de resistência. E não há fuligem que resista a quem decide florescer.