Pesquisas apontam que grupo do atual premier deve obter a maioria na Assembleia Nacional, o que não evitará novas turbulências no futuro próximo Jovem enrolado com bandeira da Armênia durante procissão em homenagem às vítimas do genocídio armênio, em Erevan — Foto: Davit Hakobyan / União Geral Armênia de Beneficência (UGAB Brasil) RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 05/06/2026 - 14:34 Armênia Navega Dilema Geopolítico: Ocidente vs. Influência Russa A Armênia enfrenta um dilema geopolítico nas eleições para a Assembleia Nacional, com o premier Nikol Pashinyan buscando aproximação com o Ocidente e a União Europeia, desafiando a influência russa. A Rússia, que vê a região como parte de sua esfera de influência, está preocupada com a perda de controle estratégico. A relação histórica Rússia-Armênia é tensa, especialmente após a Armênia congelar sua participação na OTSC, mas o governo armênio busca diversificar suas alianças, inclusive com China e Índia. As tensões aumentam com a União Econômica Eurasiática pressionando por um referendo sobre a permanência da Armênia no bloco. Pashinyan rejeita o referendo, mas a Rússia vê isso como um movimento arriscado em sua zona de influência. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Quando os armênios se dirigirem às urnas neste domingo para decidir a formação da nova Assembleia Nacional, eles estarão diante de um processo geopolítico com atores de peso. O atual governo, comandado pelo premier Nikol Pashinyan, tem feito gestos rumo ao Ocidente, sem descartar a futura adesão à União Europeia (UE), e busca uma rede mais diversa de alianças. Um movimento que não agrada a Rússia, que considera Ierevã como parte de sua zona de influência, e que não quer perder espaço em uma região estratégica. — A Armênia, apesar de ser um país muito pequeno, é muito importante do ponto de vista geopolítico. Tem fronteiras com a Otan, por causa da Turquia, com o Irã e pertence ao antigo bloco soviético. Ela está em uma esquina do mundo, em uma encruzilhada de interesses cada vez mais evidentes — explicou ao GLOBO o historiador Heitor Loureiro. — E Putin vê esses movimentos com muita desconfiança, porque o Cáucaso é uma área de influência historicamente russa. Os laços entre Rússia e Armênia são contados em séculos — o país fez parte do Império Russo e, posteriormente, da União Soviética. Há pesados investimentos em setores estratégicos, como o de energia (a usina nuclear de Metsamor é operada em parceria com a Rosatom), e os russos são seus principais fornecedores de gás e maiores parceiros comerciais. Há uma base militar em Gyumri, e uma comunidade russa que cresceu após o início da guerra com a Ucrânia. — Os povos russo e armênio estão ligados por laços de amizade de longa data e, sem exagero, por uma relação singularmente próxima que se desenvolveu ao longo dos séculos. Existe um vínculo especial entre a Rússia e a Armênia, e entre a Rússia e o povo armênio — afirmou, na última segunda-feira, Vladimir Putin. — É consenso que o Azerbaijão precisaria de algum tipo de "aprovação" de Putin para tomar essas medidas. As forças de paz russas estiveram fisicamente presentes durante todo esse período, e algumas até foram mortas — disse ao GLOBO Armen Ovanessoff, analista político armênio. — Mesmo o partido Armênia Forte, de Samvel Karapetyan, o principal concorrente ao atual governo, um bilionário russo visto por muitos como pró-Rússia, reconhece essa mudança de sentimento entre a população. Engarrafamento de veículos ao longo do corredor de Lachin, que liga Nagorno-Karabakh a Armênia, grande fluxo de armênios deixa a localidade de Armênios que fogem de Nagorno-Karabakh após ofensiva Azerbaijão — Foto: Siranush ADAMYAN/AFP Em 2024, meses depois da ofensiva em Nagorno-Karabakh, Pashinyan congelou a participação na OTSC, citando a "falha em responder aos desafios de segurança" da Armênia. O Kremlin alega que suas forças de paz na área não tinham mandato para atuar no conflito, e culpou o premier armênio pelo desfecho da crise. No ano passado, o acordo de paz firmado com o Azerbaijão, com mediação dos EUA, impôs uma derrota militar à Armênia, mas, como aponta o ex-deputado e pesquisador Mikayel Zolyan, abriu espaço para manobras de normalização regional que não necessariamente incluem Moscou. Em abril, o país sediou a reunião da Comunidade Política Europeia, fórum liderado por Bruxelas e criado após a invasão russa de 2022 — entre os convidados estava o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky. — O governo armênio usa isso como uma espécie de moeda de troca para uma barganha maior, faz movimentos ao Ocidente para mostrar a Putin que não depende mais tanto assim da Rússia, apesar de depender, por exemplo, da energia e do gás russos — explica Loureiro. — Pashinyan quer mostrar que tem opções à mesa, e que o Ocidente é uma saída possível para garantir a segurança e o crescimento. Mas é um equilíbrio bem delicado. Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio (E), assina acordos com o chanceler da Armênia, Ararat Mirzonyan, em Ierevã — Foto: Julia Demaree Nikhinson / POOL / AFP Ovanessoff também enxerga os gestos do governo como parte de uma política de diversificação de alianças que vai além da UE e dos EUA, e que não significa uma ruptura com Moscou. — A principal lição que o país aprendeu é que não pode depender de uma única potência externa. Em vez disso, precisa se engajar com múltiplos parceiros para alcançar uma série de objetivos — explica. — Isso envolve também a construção de relações cruciais com países como a Índia, o Cazaquistão, a China e outros. Para a Rússia, é uma guinada perigosa em sua esfera de influência. Na semana passada, os países da União Econômica Eurasiática (UEE), liderada por Moscou e da qual a Armênia faz parte, deram um ultimato a Ierevã: se quiser o caminho de Bruxelas, deverá realizar um referendo sobre a permanência no bloco. Pashinyan rejeitou a votação, acrescentando que trabalhará com os dois lados até que uma escolha “se torne inevitável”, e que a adesão à UE é, hoje, “algo teórico”. Em um tom mais sombrio, após a reunião da UEE, Putin disse a jornalistas que “a crise na Ucrânia começou com os esforços para avançar rumo à adesão à UE”, referência ao movimento iniciado em 2013 em defesa da aproximação de Kiev com a Europa, e que está na raiz da atual guerra. — Quando Putin faz paralelos com o cenário na Ucrânia, é improvável que ele esteja ameaçando uma invasão russa direta. É mais provável que ele esteja ameaçando com o aumento da probabilidade de guerra e conflito se o atual governo for reeleito, e provavelmente preferiria utilizar o Azerbaijão como seu “instrumento de coerção” — opina Ovanessoff — A Armênia está ciente dos danos que a Rússia pode infligir, direta ou indiretamente. É por isso que o governo tem sido muito cuidadoso em não se referir à Rússia como inimiga. Segundo as pesquisas, o grupo de Pashinyan deve ser o vencedor nas urnas neste domingo, à frente dos fragmentados blocos de oposição, alguns apoiados pela Rússia, mas Loureiro diz que isso não necessariamente lhe garante anos tranquilos. O premier precisa aguardar os resultados finais para entender se terá apoio suficiente na Assembleia Nacional para a aprovação de medidas importantes. E, como ficou demonstrado na campanha, a falta de confiança dos armênios no meio político é cada vez maior, um terreno que pode ser explorado pela onipresente propaganda russa.