Existe algo no imaginário coletivo sobre coragem que remete ao heroísmo: grandes sacrifícios, riscos extremos, atos extraordinários. No trabalho, porém, ela raramente assume essa forma épica. Mais frequentemente, aparece em situações pequenas, cotidianas e, talvez por isso, mais difíceis de reconhecer como coragem. Ela está lá na reunião em que alguém decide discordar da ideia de uma liderança poderosa. Quando alguém intervém diante de uma situação injusta. Ou ainda quando alguém escolhe defender uma pessoa ausente, mesmo sabendo do potencial desgaste político de fazê-lo. Justamente porque tendemos a associar coragem a feitos grandiosos, muitas vezes deixamos de perceber os custos invisíveis que ela carrega no cotidiano organizacional. Diferentemente do imaginário popular de coragem como ausência de medo ou impulsividade, a coragem social no trabalho envolve algo mais complexo: agir apesar da percepção clara dos riscos envolvidos. Riscos de desagradar alguém influente, de ser visto como problemático, de gerar atrito interpessoal ou até de sofrer retaliações futuras. Ou seja, coragem no trabalho não é sobre não sentir receio. Pelo contrário. Ela exige disposição para tolerar desconforto social e possível desgaste relacional em nome da defesa de uma ideia, de uma pessoa ou do próprio grupo. A ironia é que, embora o discurso dominante seja de valorização de autenticidade e franqueza, a realidade cotidiana é menos linear e coerente. Como dissidentes, queremos liberdade e tolerância para vocalizar nossas ideias. Como maioria, a discordância é inconveniente e barulhenta. Com isso, no trabalho, coragem social nem sempre é recompensada. Pessoas cordatas e submissas, por gerarem menos fricção interpessoal, tendem a ser percebidas como mais fáceis de lidar e colaborativas. Já quem desafia consensos ou expõe tensões difíceis passa a ser tachado de “difícil”, de alguém que “joga contra o time” ou “resistente”. Ou seja, em tese, queremos coragem, na prática, rechaçamos o desconforto interpessoal que ela produz. No trabalho, é preciso coragem para enfrentar situações pequenas e cotidianas como discordar de alguém em uma reunião — Foto: Pexels Porém, há um outro lado da moeda. No trabalho, emitimos sinais sobre quem somos o tempo inteiro, tanto pela ação quanto pela inação. Ou seja, se coragem social tem seu custo de atrito, a omissão sistemática também cobra seu preço reputacional. Pense naquele colega que evita sistematicamente qualquer desgaste em defesa de alguém ou algo importante. Ao longo do tempo, a imagem que vai se consolidando é menos a de prudência e mais a de alguém cuja prioridade é se autopreservar e não se expor. Porque coragem social não é apenas disposição para enfrentar desconforto interpessoal; ela também funciona como um sinal de compromisso relacional. Quem se posiciona demonstra, ainda que implicitamente, que certas relações, princípios ou pessoas valem algum grau de exposição e desgaste. E isso importa, porque se as pessoas percebem que você nunca está disposto a falar por elas quando elas estão ausentes, talvez também não estejam dispostas a fazer o mesmo por você. Ainda assim, porque os custos da coragem social tendem a ser mais imediatos e salientes do que aqueles da omissão, que são geralmente mais sutis e de longo prazo, muitos grupos acabam desenvolvendo uma dinâmica disfuncional: a terceirização da coragem. Muitas vezes, o desgaste dos posicionamentos difíceis e impopulares fica concentrado em poucos, enquanto outros se acostumam ao conforto relativo do silêncio. Cria-se uma espécie de free-riding sobre a coragem alheia: muitos se beneficiam da exposição assumida pelos outros, sem assumir eles mesmos os custos interpessoais envolvidos. E, quanto mais o grupo opera sob a expectativa tácita de que “alguém vai falar”, menos cada indivíduo se sente pessoalmente responsável por fazê-lo. A coragem, no entanto, pode se esgotar na ausência de algum grau de reciprocidade coletiva. Quando o custo social recai continuamente sobre poucas pessoas, mesmo aquelas inicialmente mais dispostas a se posicionar podem se ressentir e, aos poucos, silenciar. Não necessariamente porque deixaram de se importar, mas pela percepção de que foram deixadas sozinhas para absorver o desgaste político e relacional envolvido. O resultado é um tipo diferente de silêncio: não o silêncio da indiferença, mas o da exaustão. Talvez seja justamente por raramente assumir formas grandiosas que a coragem cotidiana no trabalho continue sendo tão subestimada e pouco valorizada. E esse talvez seja o problema: no trabalho, coragem não deveria ser vista como virtude individual ou um fardo sustentado apenas por alguns, mas como uma responsabilidade coletiva.
Como anda sua coragem no trabalho?
A colunista Tatiana Iwai fala que situações cotidianas podem ser exigir um grande esforço para expor ideias e se posicionar














